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domingo, 23 de dezembro de 2012

BLOG ENTRE OS 100 MELHORES DE 2012


(EA) NOSSO FUTURO COMUM FOI  CLASSIFICADO PARA O  2º TURNO DO TOP BLOG 2012


O Blog (EA) Nosso Futuro Comum, criado em 18 de outubro de 2009, dia de sua primeira postagem, recebeu um número significativo de votos suficientes para ficar entre os cem blogs mais votados na categoria “Sustentabilidade” do Prêmio Top Blog Brasil 2012, finalistas do 2º turno da 4ª Edição.
Eis a relação dos finalistas:

Os nossos agradecimentos a todos pelos votos e contribuição para mais uma conquista do  Blog (EA) Nosso Futuro Comum.

Saiba mais sobre o Prêmio Top Blog:

O Prêmio Top Blog é um sistema interativo de incentivo cultural destinado a reconhecer e premiar, mediante votação popular (júri popular) e acadêmica (júri acadêmico), os blogs brasileiros mais populares que possuam a maior parte de seu conteúdo focado para o público brasileiro, com melhor apresentação técnica específica a cada grupo (Pessoal e Profissional ) e suas respectivas categorias.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Prisioneiros do Medo

Publicado no Diário das Gerais - 18/12/12 PG/12


               Na proximidade do natal, época que muitos cidadãos deixam aflorar um sentimento que durante todo o ano se mantem reprimido, sentimento de solidariedade, sentimento fraternal e por último a lembrança que Jesus Cristo nasceu e morreu para nossa redenção.

 Todo esse comportamento pontual nos dá a dimensão das mudanças do comportamento social nas últimas décadas e o quanto os nossos valores foram substituídos pelos medos que nos deprime, a ponto de não nos identificarmos com o nosso semelhante.

 Medo de perder o emprego, medo de sermos assaltados na rua, medo de doenças, medo do médico, medo de alimentos contaminados, medo de desastres naturais, medo de nosso vizinho, medo do empregado comprometer nosso negócio, medo de termos nossa casa invadida por ladrões enfim, medo!

O medo de nossa infância era de assombração, de mula sem cabeça de fantasmas que desparecia com a presença dos pais ou com o amanhecer. Hoje se tem medo de tudo e a modernidade está criando os prisioneiros do medo.

As lembranças de minha infância, de como era farto os recursos naturais, imaginávamos que a água jamais iria acabar. Nadar ou pescar no Rio Caratinga com uma varinha de anzol era uma prática comum e saudável. Meus filhos não tiveram o mesmo privilégio, aprenderam na escola que hoje não é mais possível devido a escassez da água e a inexistência de peixes. A poluição e a contaminação da pouca água existente podem provocar doenças. E que a água é um recurso finito. Como é diferente.

Na verdade nos dias de hoje mantemos os nossos sentidos sempre em estado de alerta: quando será a próxima enchente em nossa região? Quando será o próximo terremoto na Ásia? E o próximo furacão nos USA?  Ou o próximo deslizamento de terras nas nossas metrópoles? Quando irá chover no Nordeste e diminuir a seca que extermina toda vida na região? Transformamos nosso planeta, hoje sentimos o medo de sua reação.

Percebemos nos projetos e ações, que as autoridades negligenciam a consciência ecológica e a necessidade de uma educação transformadora. Os pais por sua vez se acomodam e entregam a educação dos filhos para internet, que sem qualquer limite é responsável por transformações sociais por minuto. A criança de um mês atrás não será a mesma no mês seguinte, o seu comportamento está vinculado com as informações obtidas nas redes, isso é possível porque a família também se tornou negligente e acha cômodo não interferir.

Os educadores estão passando por dificuldades no controle disciplinar de seus alunos, as licenças médicas de professores é comum, o estado de stress que vivem é o maior motivo. A modernidade e a falta de limites e leis protecionistas transformaram os alunos em pequenos gigantes que não possuem o limite necessário para um comportamento ideal, e compromete assim o desempenho esperado, razão do baixo índice da educação no Brasil.

Se as mudanças sociais deveriam vir pela educação, onde iremos chegar na atual conjuntura? Continuarmos formando os prisioneiros do medo. A sociedade atemoriza diante do crescimento da violência urbana e que refletem na educação das crianças que assistem diariamente as redes de comunicação mostrar todas as ações dos criminosos como parte de nossa cultura e o desamor de pais que matam filhos, filhos que matam pais e irmãos.

  Evidenciar as desgraças na mídia é o que da audiência, vivemos uma cultura onde os conceitos foram distorcidos e os valores, a ética perde o seu lugar no pódio para o lixo televisivo que toma conta dos lares e influencia também na educação e comportamento social.

As cidades de menor porte estavam isentas desse crescimento da criminalidade, mas hoje estamos vivendo proporcionalmente o mesmo índice dos grandes centros. Assaltos a bancos, assassinatos por traficantes, roubos seguidos de morte, invasões domiciliares, aliciamento de jovens para drogas dentro das escolas, saímos para trabalhar sem saber se iremos voltar. Que mundo é este que construímos? Teremos volta? Qual a receita ideal? Muitas perguntas sem respostas.

Como é importante toda sociedade lembrar que sua atuação é vital para mudança de nossa realidade, lembrar que o problema de seu vizinho também é problema seu, que o problema de sua rua e de seu bairro também é problema seu, e que sua cidade é também problema seu e que a política também é problema seu, que a administração pública também é problema seu e que a atuação dos políticos também é problema seu.

Não viva somente o seu mundo, participe das ações de sua comunidade, participe da vida da escola de seus filhos, denuncie o tráfico de drogas, proteja o meio ambiente, se torne um cidadão proativo e verá que muito ainda poderá ser mudado com a sua colaboração e poderemos assim oferecer um mundo melhor para as futuras gerações. Aproveite o Natal e a expectativa do Novo Ano e reveja os seus conceitos e não esperar o próximo natal para deixar aflorar os seus sentimentos mais puros. Feliz Natal e Um novo ano cheio de boas ações.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Despovoamento rural, construção de estradas e secas aumentam número e extensão de incêndios na Amazônia Ocidental


queimada
O despovoamento de zonas rurais da Amazônia, a construção de estradas e as secas estão causando incêndios maiores e com mais frequência na região, segundo estudo [Depopulation of rural landscapes exacerbates fire activity in the western Amazon] de pesquisadores da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Matéria da AFP, no UOL Notícias.

“O resultado do despovoamento de áreas rurais, junto com redes ampliadas de estradas e secas crescentes está causando incêndios mais frequentes e maiores que arrasam grandes áreas”, indicam os especialistas do Instituto da Terra, departamento da universidade sediada em Nova York.

A pesquisa centrada na Amazônia peruana (que abarca 65% do território do país latino) lembra que “durante décadas, muitas áreas da bacia amazônica se tornaram um mosaico de fazendas, pradarias e áreas desmatadas à medida que o povo chegava e derrubava árvores”.

“Mas agora muitos estão partindo em busca de oportunidades econômicas nas cidades da Amazônia, em plena expansão”, acrescenta, destacando que uma das razões da existência de mais incêndios florestais é justamente este abandono de terras. “Alguns cientistas começaram a pensar que isto levaria a menos incêndios. Mas o estudo mostra o contrário: com menos gente na região para controlá-los e pequenas árvores conquistando rapidamente parcelas não cultivadas, mais incêndios fora de controle se espalham e queimam áreas maiores”, explicam.

Entre 2003 e 2007, a população da Amazônia peruana aumentou 20%, situando-se em 7,5 milhões de pessoas, segundo dados oficiais citados pelos pesquisadores. Mas as zonas urbanas cresceram de forma mais acelerada e muita gente do campo se mudou para as cidades, razão pela qual a população rural caiu até 60% em algumas províncias peruanas.

O estudo da Universidade de Columbia destaca que a população rural vai cair em quase todos os países da bacia amazônica, apesar do crescimento das cidades.

Segundo Maria Uriarte, especialista do Departamento de Ecologia, Evolução e Biologia Ambiental de Columbia e uma das autoras do estudo, embora os camponeses sejam com frequência acusados de destruir o meio ambiente, na realidade “são bastante sofisticados no manejo de incêndios e planejam quando, como e onde queimam as terras”.

Para avaliar a frequência e causas dos incêndios sem controle, os cientistas combinaram dados sobre o clima na região, imagens do uso das terras e dos incêndios e entrevistas com camponeses na cidade peruana de Pucallpa (capital do departamento de Ucayali), considerada uma das portas de entrada da Amazônia ocidental.

Muitas dessas entrevistas foram feitas enquanto ardiam incêndios na região, explicaram os autores. A Amazônia é uma região vasta compartilhada por oito países da América do Sul e a Guiana francesa.

Depopulation of rural landscapes exacerbates fire activity in the western Amazon Published online before print December 10, 2012, doi: 10.1073/pnas.1215567110 PNAS December 10, 2012 201215567 - EcoDebate

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Serviços ecossistêmicos e Serviços ambientais: Conceitos e importância!

floresta
Serviços ecossistêmicos e Serviços ambientais: Conceitos e importância!

Sérgio Gomes Tôsto1
Lauro Charlet Pereira2
João Alfredo de C. Mangabeira3
Ecossistema significa o sistema onde se vive. É um termo de origem grega e representa o conjunto formado por todas as comunidades que vivem e interagem em determinada região e pelos fatores abióticos que atuam sobre essas comunidades. São divididos em terrestres e aquáticos.
Para discutir serviços ecossistêmicos, temos primeiramente que definir o que é uma função ecossistêmica. Estas podem ser definidas como constantes interações entre os elementos estruturais, como: transferência de energia, ciclagem de nutrientes, regulação de gás, regulação climática, ciclo de água entre outros.
De modo geral, uma função ecossistêmica gera um determinado serviço ecossistêmico quando os processos naturais subjacentes desencadeiam uma série de benefícios, direta ou indiretamente apropriáveis pelo ser humano, incorporando a noção de utilidade antropocêntrica. Em outras palavras, uma função passa a ser considerada um serviço ecossistêmico quando ela apresenta possibilidade/potencial de ser utilizada para fins humanos (Hueting et al., 1997).
Os processos (funções) e serviços ecossistêmicos nem sempre apresentam uma relação biunívoca, sendo que um único serviço pode ser o produto de duas ou mais funções, ou uma única função pode gerar mais que um serviço (Costanza et al., 1997).
As funções ecossistêmicas podem ser agrupadas em quatro categorias primárias: i) funções de regulação; ii) funções de habitat; iii) funções de produção; e iv) funções de informação (De Groot et al., 2002).
Como exemplos de serviços ecossistêmicos e suas funções, podemos destacar aqueles oferecidos pela mata ciliar, ou ripária, de acordo com Costanza et al., 1997 (Tabela 1).
Tabela 1 – Serviços ecossistêmicos oferecidos pela mata ciliar
Serviços EcossistêmicosFunções Ecossistêmicas
Controle de distúrbiosAtenuar flutuações ambientais
Controle da águaControle dos fluxos hidrológicos
Controle de erosãoRetenção do solo em um ecossistema
Formação de soloProcesso de formação de solo
Ciclagem de nutrientesArmazenamento, ciclagem interna, processamento e captação de nutrientes.
Controle biológicoControle da dinâmica trófica das populações
Produção de alimentoProdução primária de alimentos
Matéria primaProdução primária extraída como matéria prima
Recursos genéticosFonte de materiais biológicos e produtos
RecreaçãoOportunidade para atividades recreativas
CulturalOportunidades para usos não comerciais
Controle do climaRegulação da temperatura e processos climáticos globais
Fornecimento de águaArmazenamento e retenção de água
Quanto a serviços ambientais, são conceituados como aqueles prestados pelos diversos agentes econômicos para conservação e/ou recuperação dos recursos naturais. Dentro os diversos exemplos, podem ser destacados: recuperação e manutenção da mata ciliar; construção de terraços; e recuperação de áreas degradadas.
Em resumo, a principal diferença entre serviços ambientais e serviços ecossistêmicos é que, no primeiro caso, os benefícios gerados estão associados a ações de manejo do homem nos sistemas naturais ou agroecossistemas; já os serviços ecossistêmicos refletem apenas os benefícios diretos e indiretos providos pelo funcionamento dos ecossistemas, sem a interferência humana.
A importância do conhecimento desses serviços pode está relacionada a diversos aspectos. Dentre eles, sucintamente podemos destacar: a) a oferta de serviços ecossistêmicos pressupõe um equilíbrio ou conservação de recursos naturais; b) uma vez recuperado os recursos naturais como solo, água e vegetação/biodiversidade, implicitamente ocorrerá uma retomada do equilíbrio e a consequente oferta de serviços ecossistêmicos, na sua plenitude.
Referências bibliográficas
COSTANZA, R., D’ARGE, R., DE GROOT, R.S., FARBER, S., GRASSO, M., HANNON, B., LIMBURG, K., NAEEM, S., O’NEILL, R.V., PARUELO, J., RASKIN, R.G., SUTTON, P., VAN DEN BELT, M., 1997. The value of the world’s ecosystem services and natural capital. Nature 387, 253-260.
HUETING, R., REIJNDERS, L., de BOER, B., LAMBOOY, J., JANSEN, H., 1998. The concept of environmental function and its valuation. Ecological Economics 25, 31-35.

Sustentabilidade e o legado da copa II

Mascote da Copa do mundo de 2014 (Imagem: Fifa/Divulgação)
Mascote da Copa do mundo de 2014 (Imagem: Fifa/Divulgação)
É importante ressaltar que as teorias vigentes, com preocupação principalmente econômica, não alcançaram seus intentos de prover o progresso social, melhorar a qualidade de vida e reduzir as desigualdades.
 
Mesmo tendo este marco para sua conceituação, a noção de desenvolvimento sustentável exibe uma evolução de conceitos a partir do “ecodesenvolvimento”, que vinha sendo defendido desde 1972, ano de realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, em Estocolmo (SACHS, 2004).
 
Segundo Veiga (2005), três são os entendimentos acerca do desenvolvimento com sustentabilidade. A primeira corrente seria a dos fundamentalistas. Nesse entendimento, o desenvolvimento teria o mesmo significado de crescimento econômico.
 
Essa noção ainda apresenta grande força na atualidade, tendo como principal exemplo de sua aplicação a comum medição do desenvolvimento com base no Produto Interno Bruto per capita de um país. Esse entendimento foi enfraquecido com o Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento (PNUD) através do “Relatório do Desenvolvimento Humano” e do lançamento do “Índice de Desenvolvimento Humano” (IDH).
 
A criação desse programa e do índice teve como causa a percepção de que o crescimento econômico apresentado por alguns países na década de 1950 não trouxe consigo os mesmos resultados sociais ocorridos em outros países considerados desenvolvidos (VEIGA, 2005).
 
A segunda corrente de pensamento nega a existência do desenvolvimento, tratando-o como um mito. São denominados de pós-modernistas. Para o grupo, a noção de desenvolvimento sustentável em nada altera a visão de desenvolvimento econômico, sendo ambas pertencentes ao mesmo mito. (SACHS, 1986).
 
Giovanni Arrighi é um dos autores dessa vertente. Divide os países em pertencentes do “núcleo orgânico”, “semiperiféricos” e “emergentes”, não acreditando ser possível, somente em condições excepcionais, que um país altere a sua posição.
 
Ainda como pós-modernistas encontra-se Oswaldo de Rivero, Majid Rahnema e Gilbert Rist. Nessa interpretação o que os países em desenvolvimento precisariam buscar não seria o desenvolvimento e sim a sobrevivência, com todas as conseqüências ambientais que esta postura determina. Não se pode culpar alguém por executar uma ação que agride o meio ambiente, quando a sobrevivência das pessoas depende disto.
 
O terceiro e mais complexo entendimento ganha força com o primeiro Relatório do Desenvolvimento Humano em 1990, e obtendo maior consistência nas palavras Amartya Sen em 1996 e 1997 com a noção de desenvolvimento como liberdade de modo que só poderia ocorrer se fossem garantidos a todas as pessoas os seus direitos individuais que efetivariam a sua liberdade.
 
Assim a liberdade em nenhum momento poderia se restringir e ser entendida como renda per capita, devendo abranger questões culturais, sociais, entre outras (VEIGA, 2005). Essa é a noção que mais se aproxima das discussões atuais sobre o desenvolvimento sustentável, tendo grande importância nesse processo de transformação.
 
Isto explica e justifica a necessidade cada vez maior de participação das comunidades nas discussões ambientais, seja na avaliação de projetos em audiências públicas, seja na elaboração e implantação de políticas públicas de meio ambiente.
 
Goldsmith, 1972, já definia o desenvolvimento sustentável como sendo quando uma sociedade tem seus propósitos e intenções de forma que possam ser atendidos indefinidamente com satisfação ótima para seus membros.
 
Pronk and Haq (1992) asseveram que desenvolvimento sustentável ocorre quando o crescimento econômico traz justiça e oportunidades para todos os seres humanos do planeta, sem privilégios de algumas espécies, sem destruir os recursos naturais finitos e sem ultrapassar a capacidade de carga do sistema.
 
Para Costanza (1991) deve ser inserida uma nova variável na relação dinâmica entre o sistema econômico humano e um sistema maior com taxa de mudança, caracterizado por mudanças mais lentas, de caráter e denominação mais ecológica.
 
No Primeiro parágrafo do Capítulo 28 da Agenda 21 Global encontra-se as bases da parceria necessária, nos planos nacionais e locais, para atingir os objetivos preconizados durante a Conferencia das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. Como muitos dos problemas e soluções tratados na Agenda 21 têm suas raízes nas atividades locais, a participação e cooperação das autoridades locais será um fator determinante na realização de seus objetivos.
 
GOLDSMITH. Blueprint of for survivel. Pinguin, Harmon ds Worth & Haughton Miffin, 1972.
SACHS, I. Ecodesenvolvimento: crescer sem destruir, São Paulo, Vértice, 1986
SACHS, I. Inclusão social pelo trabalho decente: oportunidades, obstáculos, políticas publicas, Estudos Avançados, 2004.
VEIGA, J. E. Desenvolvimento sustentável: o desafio do século XXI. Rio de Janeiro: Garamond, 2005.
PRONK, J. & HAK, M. (1992). Sustainable Development: From Concept to Action. The Hague Report. New York: United Nations Development Program.
COSTANZA, R. Ecological economics: the science and management of sustainability, New York 1991. Dr. Roberto Naime

Pesquisa mostra que brasileiros ignoram a crise ambiental.

Publicado Diário das Gerais 12/12/12
É lamentável, ver em pleno século XX com toda sorte de informações possíveis a capacidade de alguns políticos conseguirem manobrar a sociedade com tanta facilidade.  A passeata no Rio contra nova divisão dos royalties no dia 26 de novembro é um exemplo.

Apesar da chuva fina que caia o número de manifestantes na Avenida Rio Branco, no centro da cidade, que participavam da passeata contra a proposta aprovada pela Câmara, que retira do Estado parte das receitas dos royalties de petróleo. A avenida foi fechada ao trânsito e a Polícia Militar mobilizou 4.775 policiais para trabalhar na segurança da manifestação organizada pelo Governo do Estado. Segundo estima a Polícia Militar, 200 mil pessoas participaram da ação.

            Analisando o comportamento social concluímos que estamos caminhando na contramão da preservação ambiental e que as mudanças necessárias terá um custo social muito elevado. Na ação, provavelmente 80% das pessoas presentes não sabem de fato porque participaram da passeata. Quando olhamos os interesses socioambientais, e a necessidade de uma distribuição equânime dos recursos como uma base sólida da  solução para diminuir a pobreza e levar desenvolvimento a todo país. Tendo assim a possibilitando de um maior equilíbrio nos benefícios como: uma educação de qualidade, um atendimento de saúde mais digno, como ocorre nos estados mais ricos e assim refletir na diminuição da degradação e poluição ambiental.

            Outro fator que nos deixa indignado é perceber que nenhum político tem a iniciativa de mobilizar a sociedade para exigir ações efetivas em favor do meio ambiente, como: a construção de mais usinas de energia limpa, a exemplo de eólicas, energia solar etc. A ampliação dos programas de biocombustível, fabricação de carros elétricos, substituindo e reduzindo a exploração de combustíveis fósseis.

            Sempre lembramos que a conscientização das pessoas é o caminho mais rápido para mudarmos essa triste realidade. Como será importante o dia que todos entenderem a importância que cada um tem nesse processo de proteção ambiental, e conseguirmos um movimento de tamanha magnitude exigindo mudanças sérias nas políticas públicas. Diante desse quadro o IBOPE realizou pesquisa que mostra com clareza a importância que o brasileiro demonstra ter com as questões ambientais.  O quadro é desolador.

Veja parte da pesquisa nos dois parágrafos abaixo.

As questões sociais preocupam bem mais o brasileiro do que as questões ambientais, aponta pesquisa do Programa Água Brasil, apresentada dia 28/11 durante a Reviravolta ExpoCatadores 2012, na capital paulista. Temas como aquecimento global, acúmulo e descarte inapropriado de resíduos e contaminação de rio e mananciais são apontados como principais problemas por apenas 7% dos entrevistados. O estudo sobre o nível de consciência da população sobre práticas sustentáveis foi encomendado ao Ibope.

Quando questionados sobre os três principais problemas que afetam o país atualmente, os temas mais recorrentes aos entrevistados foram saúde (70%), desemprego (53%), fome (50%), corrupção (42%) e educação pública (39%). Temas relacionados ao meio ambiente ficaram em penúltimo lugar, perdendo apenas para o item economia global, que foi citado por 2% dos entrevistados. Participaram do estudo 2.002 pessoas em todas as capitais e mais 73 municípios, em novembro do ano passado. Matéria completa sobre a pesquisa.

(http://cesaratorres.blogspot.com.br/2012/11/brasileiros-preocupam-se-mais-com.html)

Tenho certeza que falta vontade política para se tomar atitudes mais eficazes. As administrações públicas no Brasil possuem na legislação algumas normas e diretrizes que impõem restrições e limites para aplicação dos recursos. Na educação os municípios são obrigados a gastar da receita corrente 25%, na saúde 15%, sob pena de responderem juridicamente por ato de improbidade administrativa. Fica aqui registrado nossa sugestão para ações efetivas na proteção ambiental - Considerando hoje que a questão ambiental se tornou uma prioridade do planeta, não seria também um caminho para que o poder público investisse mais no meio ambiente estabelecendo um coeficiente obrigatório a exemplo da Educação e Saúde? Um percentual de 10% da receita já atenderia inicialmente a grande demanda.

            No que seria aplicado os recursos? Na educação ambiental com abrangência de 100% da população, na recuperação de áreas degradadas, no reflorestamento de topos de morro e matas ciliares, proteção de nascentes, despoluição de mananciais, reciclagem e compostagem do lixo. Como forma de uma educação e maior vigilância das ações humanas, a estruturação das Secretarias de Meio Ambiente, tendo um programa de ações permanentes com “Agentes Municipais Ambientais” com abrangência de 100% do município, a exemplo dos Agentes Municipais de Saúde.

            Sabemos que infelizmente estas ações só ocorrem no limite das necessidades, mas se continuarmos usando todos os meios e conquistando mais adesões, nossa voz terá eco e as mudanças acorrerão com maior velocidade.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Por um sistema integrado de tratamento do lixo


lixo
 “Temos que minimizar a geração, começando pela redução na fonte, ou seja, não gerando o lixo e, se este for inevitável, gerar menos, evitando o desperdício”, defende Eglé Novaes Teixeira
Por: Graziela Wolfart
Na visão da professora da Unicamp Eglé Novaes Teixeira, nossos hábitos nos conduzirão a um “mundo de lixo”. Na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line, ela acredita que todos devem mudar seus hábitos, passando a gerar menos resíduo, pensando e consumindo de forma consciente. “Antes de fazermos uma compra, devemos nos perguntar: preciso realmente deste bem ou coisa? O que tenho não dá para ser ainda usado? Preciso comprar tanto? Não posso diminuir a quantidade que estou comprando? Vou poder aproveitar tudo que estou comprando?”, questiona. E continua: “se realmente tivermos que fazer a compra, devemos optar por produtos que sejam reutilizáveis ou recicláveis. Agindo sempre dessa forma, evitaremos o desperdício, diminuiremos o lixo que geramos e ainda economizaremos nosso dinheiro”.
Eglé Novaes Teixeira possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, mestrado em Engenharia Agrícola pela mesma instituição, doutorado em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo e é livre docente na área de Resíduos sólidos também pela Unicamp, onde é professora.
Confira a entrevista. 

IHU On-Line – Em que sentido Fernando de Noronha pode ser apontado como o “paraíso do lixo”? Quais os fatores que favorecem o aumento do lixo no local?

Eglé Novaes Teixeira –Paraiso do lixo é redundante e exagero. O que acontece é que Fernando de Noronha é uma ilha e depende de tudo do continente, inclusive para dispor seu resíduo. Quando a coleta e transporte deixam a desejar, a ilha transforma-se no “paraíso do lixo”, ou seja, fica lixo disposto inadequadamente. Quanto ao aumento de lixo no local, afora o turismo, é o próprio estilo de vida atual, com muito descartável, muita embalagem, que a natureza não consegue eliminar (não podemos esquecer a grande quantidade de lixo gerada por pessoa). Para diminuir este efeito, só com a conscientização de todos para, além de dispor o lixo no local adequado, pensar antes de comprar se há realmente necessidade dessa compra, pois tudo o que se compra, de uma forma ou de outra, gera lixo. Temos que minimizar a geração, começando pela redução na fonte, ou seja, não gerando o lixo e, se este for inevitável, gerar menos, evitando o desperdício.

IHU On-Line – Qual a importância das usinas de compostagem em relação ao papel de transformar o resíduo orgânico em adubo?

Eglé Novaes Teixeira –Para transformar lixo em adubo, em escala maior, as usinas de compostagem são a única opção. A população pode fazer o composto (adubo feito a partir de resíduo orgânico, via compostagem) em casa, via compostagem caseira. Mas em termos de município, só através de usina de compostagem (também chamadas de unidades de compostagem). A grande vantagem da compostagem é que reduz a quantidade de resíduo que tem que ser disposta (é a parcela transformada em adubo que retorna ao solo, deixando de ir ao aterro). Mas para que seja efetivamente útil, deve-se ter mercado para o composto, ou seja, área agrícola próxima, com capacidade para absorver o composto. Não se pode esquecer que após o período inicial, da formação do primeiro composto, tem-se que dispor o composto diariamente, em quantidade igual a aproximadamente 50 ou 60% da matéria orgânica que está entrando na usina. Tem que haver plantações capazes de receber o adubo diariamente (claro, tem que ser mais de um tipo de plantação, já que cada uma não consegue ser adubada todos os 365 dias do ano).

IHU On-Line – Quais os maiores problemas que envolvem os grandes lixões a céu aberto? Que alternativas se colocam a eles?

Eglé Novaes Teixeira – O grande problema dos lixões a céu aberto é que eles geram todos os tipos de contaminação: contaminam o ar (gases voláteis e quando da queima indiscriminada), contaminam o solo com o próprio resíduo e com o chorume (líquido proveniente da decomposição da matéria orgânica mais a água proveniente da umidade do lixo e da chuva principalmente), contaminam as águas subterrânea e superficial (com o chorume se infiltrando e/ou escoando superficialmente). São focos de doenças, pois oferecem abrigo e alimento a vetores (ratos, baratas, escorpiões, além de animais de maior porte e o próprio homem) que são veículos que proliferam doenças. Ainda são esteticamente fonte de poluição visual. A alternativa ao lixão é a disposição e o tratamento ambientalmente adequados do resíduo, onde se podem citar o aterro sanitário, a compostagem, a reciclagem e mesmo um sistema de incineração (envolve, além do forno, processos de tratamento dos gases, da água gerada neste tratamento dos gases, a disposição adequada das cinzas e dos resíduos provenientes do tratamento dos gases e da água). Atualmente, não se deve mais pensar em apenas em um tipo de tratamento, mas em um sistema integrado de tratamento do lixo, onde cada tipo de resíduo recebe o tratamento mais adequado.

IHU On-Line – Qual seria o melhor destino, em sua opinião, para os resíduos sólidos do lixo doméstico?

Eglé Novaes Teixeira –O sistema integrado de tratamento de resíduos citado na questão anterior. Assim, o resíduo reciclável deve ser encaminhado à reciclagem; a matéria orgânica, se possível e na quantidade em que é possível utilizar o composto, deve ser encaminhada à compostagem. A matéria orgânica não possível de ser compostada, juntamente com varrição, resíduo da limpeza de boca de lobos e galerias de águas pluviais, deve ser encaminhada a um aterro sanitário. O resíduo de construção civil deve ser segregado e aquela parcela passível de ser reciclada na construção civil deve ser encaminhada para reciclagem. A parcela de resíduo perigoso (tintas solventes, etc.) deve ser encaminhada para aterros de resíduos perigosos ou incineração. A parcela de resíduo comum (plástico, papel, papelão, matéria orgânica) deve ser disposta como os resíduos que o compõe (recicláveis e orgânicos) e a parcela que não é perigosa e nem reciclável deve ser encaminhada a aterros de resíduos da construção civil. O resíduo de serviços de saúde deve ser separado e o infeccioso deve ser desinfetado (autoclavagem  ou micro-ondas, principalmente) ou incinerado; o comum, assim disposto; o resíduo químico deve ser encaminhado para incineração e/ou recuperação. Enfim, cada tipo de resíduo deve ter o tratamento mais adequado às suas características e de forma a não poluir e nem contaminar o ambiente.

IHU On-Line – Como a senhora vê a proposta da criação de usinas de incineração de lixo para a geração de energia elétrica?

Eglé Novaes Teixeira –A incineração só é aceitável hoje se for feita por meio de um sistema de incineração, ou seja, o resíduo deve ser bem conhecido para poder entrar no sistema e, dessa forma, o sistema deve ter processos de tratamento para eliminar ou reduzir a índices aceitáveis pela legislação para lançamento todos os tipos de gases a serem gerados com a queima controlada desse resíduo. Se no tratamento dos gases for utilizada água (como nos lavadores de gases, por exemplo), a água resultante do tratamento, com as impurezas resultantes da limpeza dos gases, deve ser também tratada. Os sólidos gerados em todo o sistema de incineração (cinzas e escórias geradas no forno, particulados e precipitados gerados no tratamento dos gases, e lodos gerados no tratamento de eventual água) devem ser dispostos adequadamente em função de suas características (se perigosos, em aterros de resíduos perigosos e se inertes, em aterros de inertes). Dessa forma, o sistema de incineração é aceitável, pois além de não poluir ainda permite a recuperação energética, usualmente empregada para gerar energia elétrica. Nos países frios, essa prática também é usada para calefação de ambientes. O único problema desse tipo de tratamento é obviamente o seu custo. Por isso é que o sistema de incineração só é adotado quando as demais opções são inviabilizadas (por exemplo, não haver área disponível e adequada para aterro sanitário). Usar a incineração apenas para gerar energia não tem sentido. Deve ser usada para tratar resíduos, aproveitando a energia.

IHU On-Line – Que análise a senhora faz da Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS?

Eglé Novaes Teixeira –A PNRS, tão esperada e desejada, finalmente chegou. Acredito que vamos ter uma melhora significativa na disposição de resíduo gerado e teremos, acredito, implantada a logística reversa para mais tipos de resíduos além dos obrigatórios pela PNRS (esta permite e abre espaço para que outros setores adotem a logística reversa, desde que de comum acordo), pois esta é, no final das contas, interessante ao setor produtivo. O que gostaria que tivesse tido mais ênfase é a redução na fonte de resíduo (é citada, mas gostaria que fosse mais incisiva).

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar mais algum comentário sobre o tema?

Eglé Novaes Teixeira –Sim. Gostaria de que todos os leitores sensibilizassem e se conscientizassem que nossos hábitos, como estão hoje, nos conduzirão a um mundo de lixo. Temos que mudar nossos hábitos, passando a gerar menos resíduo, pensando e consumindo de forma consciente. Antes de fazermos uma compra, devemos nos perguntar: preciso realmente deste bem ou coisa? O que tenho não dá para ser ainda usado? Preciso comprar tanto? Não posso diminuir a quantidade que estou comprando? Vou poder aproveitar tudo que estou comprando? Se realmente tivermos que fazer a compra, devemos optar por produtos que sejam reutilizáveis ou recicláveis. Agindo sempre desta forma, evitaremos o desperdício, diminuiremos o lixo que geramos e ainda economizaremos nosso dinheiro. Ecodebate

Agrotóxicos: ‘Flexibilizar a lei gaúcha seria um retrocesso


veneno
É estranho que o Brasil, na tentativa de resolver o problema da fome, use uma série de tecnologias no sentido de aumentar a produtividade. Algumas dessas tecnologias vieram com a promessa de diminuir o volume de agrotóxicos utilizados na agricultura. Mas o fato é que desde 2008 o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo”, constata o engenheiro agrônomo.
Confira a entrevista.
Há trinta anos o Rio Grande do Sul aprovou a Lei n. 7.747, que proíbe o uso de agrotóxicos proibidos nos países de origem. No entanto, uma audiência pública realizada na Assembleia Legislativa na última segunda-feira, 3-12-2012, propôs flexibilizar a legislação e autorizar o uso desses produtos no estado. Na avaliação do engenheiro agrônomo da Emater, a reivindicação feita pelos produtores rurais e empresas do setor de agronegócio são simplistas.  “Pesquisadores do mundo todo estão falando em sustentabilidade, têm um discurso ambiental, e por isso não podemos ir na contramão dessa discussão. Flexibilizar a lei seria um retrocesso”, disse à IHU On-Line em entrevista concedida por telefone.
Segundo ele, o “Rio Grande do Sul ocupa o quarto lugar entre os estados que mais consomem agrotóxicos”, e, apesar de muitos agricultores terem interesse em um modelo agrícola que dispense o uso de herbicidas, faltam investimentos em modelos alternativos. Na contramão de uma mudança significativa no controle do uso de agrotóxicos, Weber destaca que “está sendo montado no país um sistema de rastreabilidade da produção orgânica, mas não existe uma rastreabilidade da produção química. Quer dizer, produtos com veneno não são controlados, mas, enquanto isso, o Ministério da Agricultura está montando um aparato para fiscalizar a produção orgânica”.

Jaime Weber é Engenheiro Agrônomo, formado pela Universidade Federal de Pelotas e pós-graduado em Agricultura, Desenvolvimento e Sociedade pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Possui especialização em Manejos Ambientais, realizada na Alemanha. É engenheiro agrônomo da Embrapa.

Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como foi a audiência pública sobre a Lei n. 7.747, que regulamenta o uso de agrotóxicos no Rio Grande do Sul, ocorrida no dia 3 de dezembro na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul?

Jaime Weber – A Lei n. 7.747 é de 1982 e é considerada pelos gaúchos uma conquista, porque, diferentemente da legislação nacional, restringe a importação de agrotóxicos que são proibidos nos países de origem. A reivindicação principal da audiência pública foi a flexibilização da lei, como já havia acontecido em outra audiência pública recentemente. Tentamos entender porque esse tipo de reivindicação é feita. Os representantes da indústria do agrotóxico justificam que em outros estados a lei não restringe o uso de determinados agrotóxicos, e que produtos que chegam ao Rio Grande do Sul podem conter agrotóxicos que são proibidos apenas no estado. Essa é uma justificativa simplista e sabemos que as empresas querem ganhar lucro e vender seus produtos. Estávamos tentando entender o que justificava essa audiência, e ouvi dizer que há produtos estocados em cooperativas ou empresas que querem vendê-los, mas não conseguem por causa da proibição.
É estranho que o Brasil, na tentativa de resolver o problema da fome, use uma série de tecnologias no sentido de aumentar a produtividade. Algumas dessas tecnologias vieram com a promessa de diminuir o volume de agrotóxicos utilizados na agricultura. Mas o fato é que desde 2008 o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Participei de um evento recente no Rio de Janeiro, onde a Fiocruz já trata o tema do agrotóxico como um dos prováveis causadores de câncer.

IHU On-Line – Como vê as tentativas de alterar a legislação?

Jaime Weber– Como o Rio Grande do Sul foi pioneiro na formulação dessa legislação, temos de tentar incentivar os outros estados a mudarem as suas legislações também no sentido de restringir produtos que sejam proibidos no país de origem. Se eles são proibidos nos países de origem é porque há problemas. Então, é obvio que eles não podem ser comercializados. Nós, da Emater, somos contrários a essa possibilidade de flexibilizar a lei. Pesquisadores do mundo todo estão falando em sustentabilidade, têm um discurso ambiental, e por isso não podemos ir na contramão dessa discussão. Flexibilizar a lei seria um retrocesso.
É interessante que, por outro lado, o governo brasileiro criou a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica. Essa é uma de uma série de iniciativas que propõe uma agricultura sem o uso de agrotóxicos. O Brasil e o Rio Grande do Sul têm um conjunto de iniciativas de agroecologia que serve de exemplo para outros países do mundo. Em contrapartida, no estado estão discutindo a flexibilização da legislação. É algo que não tem sentido.
IHU On-Line – Que avaliação faz do uso de agrotóxicos no estado? Há algum estudo sobre a contaminação do solo ou casos de problemas de saúde referentes ao uso dos defensivos?
Jaime Weber – O Rio Grande do Sul ocupa o quarto lugar entre os estados que mais consomem agrotóxicos. Nele há um problema específico por causa dos produtos que entram pela fronteira do Uruguai, do Paraguai e da Argentina, com um custo mais baixo. Não sabemos qual é a qualidade dos alimentos que estão chegando à mesa do consumidor. Para termos certeza sobre a qualidade dos alimentos, precisamos fazer análises, as quais são muito caras e hoje não há um programa que favoreça isso.
É engraçado que hoje está sendo montado no país um sistema de rastreabilidade da produção orgânica, mas não existe uma rastreabilidade da produção química. Quer dizer, produtos com veneno não são controlados, mas, enquanto isso, o Ministério da Agriculturaestá montando um aparato para fiscalizar a produção orgânica.
Por enquanto, as análises de comprovação da qualidade dos produtos é feita pela Anvisa, e os resultados são impressionantes. O excesso de resíduos em morangos, pimentão, batatinha está muito acima do nível permitido. Quais as implicações isso tem ou está tendo sobre o meio ambiente, a saúde do produtor e do consumidor estão ainda sendo pesquisadas. Sabemos que alguns agricultores não podem mais chegar próximo à lavoura na época de aplicação dos agrotóxicos, porque estão contaminados. Também há casos de depressão no interior, e sabemos que os agrotóxicos têm uma relação com esses problemas.
IHU On-Line – Quais são as maiores dificuldades e desafios no sentido de propor uma agricultura livre de agrotóxicos? Como os agricultores gaúchos se posicionam diante das campanhas de restrição do uso de agrotóxico?
Jaime Weber – O Rio Grande do Sul tem um acúmulo grande de agrotóxicos em várias regiões. A maioria dos agricultores com quem conversamos gostaria de não utilizar mais esses produtos. Por isso, várias instituições e movimentos sociais estão desenvolvendo experiências que chamamos de “processo de transição” no sentido de diminuir o uso de agrotóxicos e reequilibrar o ambiente.
Anos atrás dizíamos que a agricultura, a produção orgânica e a agroecologia não avançavam por problemas de mercado. Mas esse mercado surgiu rapidamente e não há produção suficiente para atender a essa demanda. Defendo a produção de cadeias curtas, ou seja, com menos gastos energéticos. É preciso produzir alimentos de qualidade, que sejam consumidos preferencialmente nas regiões de produção. Nesse sentido, não é nossa função produzir alimentos de qualidade para mandar para fora (Europa ou EUA).
IHU On-Line – O Brasil é o primeiro colocado no ranking mundial do consumo de agrotóxicos. Quais as razões de o país investir nesse modelo agrícola?
Jaime Weber– A produção de grãos para a exportação e a soja transgênica vieram com uma promessa de redução do uso de agrotóxicos, mas na prática isso não tem se sustentado. O plantio direto, por exemplo, que é uma prática interessante, acabou ficando atrelado ao uso de herbicidas, que cresceu enormemente. Do mesmo modo, a soja transgênica aumentou o uso de fungicidas. Esse é um círculo vicioso, onde se aplicam determinadas dosagens de venenos, que não fazem mais efeito. Por isso, o uso de agrotóxico aumentou e o Brasil chegou nesse patamar, ao optar pela produção de grãos para a exportação.
IHU On-Line – Como poderia se constituir um movimento social de vigilância sanitária e ambiental que envolvesse não só entidades do governo, mas a sociedade civil de forma organizada e participativa no sentido de mudar essa prática do uso de agrotóxicos?
Jaime Weber– Algumas décadas atrás, quando começou esse movimento questionador da revolução verde, do uso intensivo de agroquímicos, havia muitas críticas a esse modelo, mas não se apresentavam alternativas. Mas, principalmente na última década, surgiu um arsenal bem interessante de possibilidades, com tecnologias apropriadas para se trabalhar em um processo de transição.
Por outro lado, falto investimento público, linhas de crédito que possibilitem os agricultores optarem por um modelo agrícola diferenciado, sem o uso de agrotóxicos. Também falta muita capacitação técnica dos técnicos, porque esse é um tema que não é trabalhado dentro das universidades, não é trabalhado dentro dos colégios agrícolas. Muitos profissionais que se formam passam a vender produtos químicos, e a universidade forma para isso mesmo. Então, precisaria mudar a capacitação dentro dos colégios agrícolas, dentro das universidades, e não estou falando só dos cursos de Agronomia, estou falando também do curso de Biologia, do curso de Nutrição, que tratam diretamente da qualidade do alimento.
Se realmente queremos um planeta mais sustentável, temos de trabalhar essas questões. O Estado e a sociedade têm de assumir isso. Há uma série de inter-relações no mundo, mas a universidade mostra as coisas de forma muito separada. Temos de voltar a pensar, a entender, a olhar a natureza de maneira diferenciada e, principalmente, como a natureza se comporta. Essa é uma coisa básica para trabalhar a produção orgânica e a agroecologia.
Existem vários movimentos, especialmente da sociedade civil, que estão com campanhas expressivas no Brasil e America Latina sobre esse tema do combate aos agrotóxicos e o uso de alternativas; um desses é a Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e pela Vida, no Brasil, e outro é a Rede de Ação em Praguicidas e suas Alternativas para a America Latina – RAP-AL (www.rap-al.org). As ações desses movimentos podem ser acompanhadas pelos sites respectivos. Ecodebate

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