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quarta-feira, 28 de julho de 2010

MATA CILIAR



As matas ciliares são sistemas vegetais essenciais ao equilíbrio ambiental e, portanto, devem representar uma preocupação central para o desenvolvimento rural sustentável. São compostas por uma vegetação densa que inclui desde espécies herbáceas e arbustivas até árvores de grande porte. Por estarem às margens dos rios, não apresentam adaptações que impedem um alto nível de transpiração, fazendo com que o grau de umidade no interior destas matas seja elevado. Têm a função de proteger o curso d'água dos desbarrancamentos e da entrada de elementos carreados pela chuva, como lixo mal disposto (papéis, trapos, plásticos, latas), combustíveis de automóveis e defensivos agrícolas. Colabora também para a diminuição da variação da temperatura na água e serve como fonte de alimento para os organismos aquáticos.



Outras Funções Importantes:



  • Controlar a erosão nas margens dos cursos d água, evitando o assoreamento dos mananciais

  • Minimizar os efeitos de enchentes

  • Manter a quantidade e a qualidade das águas

  • Filtrar os possíveis resíduos de produtos químicos como agrotóxicos e fertilizantes

  • Auxiliar na proteção da fauna local.


Apesar de sua importância ecológica, a mata ciliar é geralmente substituída por agricultura ou pecuária, causando perda de solo, assoreamento do rio e às vezes contaminação da água por agrotóxicos. Em áreas urbanas, a mata ciliar é substituída por casas e ruas, resultando em alagamentos em épocas de cheias. Apesar de sua conservação ser garantida por lei, são raríssimos os casos em que os limites estabelecidos (30 metros a cada margem) tem sido observados.



As áreas já destruídas e ocupadas com outras vegetações podem ajudar a evitar o assoreamento, embora não sejam eficientes como a mata ciliar. Caso não sejam mais utilizadas podem, no decorrer de muitos anos, evoluírem formando novamente uma mata ciliar. A preservação e a recuperação das matas ciliares, aliadas às práticas de conservação e ao manejo adequado do solo, garantem a proteção de um dos principais recursos naturais: a água.



São vários programas com objetivos de contribuir para a proteção das nascentes e dos mananciais, por meio da recomposição da cobertura vegetal no Brasil como a Bolsa Verde.
Os objetivos do reflorestamento nas microbacias hidrográficas são:




  • Contribuir para conscientização dos produtores sobre a necessidade de conservação dos recursos naturais

  • Incentivar o reflorestamento, através da doação de mudas de essências florestais nativas aos produtores

  • Contribuir para aumentar a proteção e vazão das nascentes e dos mananciais hídricos

  • Contribuir para melhorara a qualidade da água;contribuir para reverter processos de degradação ambiental

  • Contribuir para a preservação da biodiversidade e do patrimônio genético da flora e da fauna;buscar um equilíbrio biológico duradouro, essencial a uma melhor qualidade de vida.


Os passos para o reflorestamento nas microbacias são:




  • Identificação de áreas críticas de desmatamento na microbacias

  • Identificação das áreas prioritárias a serem reflorestadas dentro da lógica de corredores biológicos

  • Motivação dos produtores para a adoção de práticas conservacionistas, visando à recuperação das áreas degradadas

  • Distribuição gratuita através das Prefeituras e institutos ambientais de mudas aos beneficiários e prestação de assistência Técnica.

  • Apoio á construção de cercas para proteção de mananciais, através de concessão de subvenções econômicas aos produtores rurais

São inúmeras as tentativas para uma conscientização ambiental. Espera-se que a velocidade das ações acompanhe a necessidade, e a recuperação aconteça antes do fim.

César Torres

terça-feira, 27 de julho de 2010

Lixo eletrônico




Sucateamento acelerado, descarte crescente e a falta de um sistema organizado de coleta e reciclagem fazem do lixo eletrônico um dos desafios ambientais do mundo no século XXI.
Especialmente no Brasil, onde ainda não há lei específica para o descarte de computadores, celulares, televisores, geladeiras, brinquedos e tantos outros produtos eletrônicos.
Poucas são as empresas que fazem a separação correta dos componentes, incluindo metais, plásticos e substâncias perigosas, como os metais pesados. Há também algumas ONGs que trabalham com a recuperação de computadores considerados ultrapassados para posterior doação a pessoas de baixa renda. Mas grande volume de sucata eletrônica vai parar nos aterros sanitários, podendo prejudicar a saúde humana e o ambiente.

“Ou esse material é doado ou provavelmente vá a leilão”, afirma Leonel Furtado Gonçalves, chefe da seção de recolhimento de bens móveis da UFRGS, enquanto caminhamos pelo depósito de materiais descartados da Universidade. A cena é de um acúmulo impressionante: nas prateleiras do imenso galpão, localizado no Câmpus do Vale, estão aproximadamente 3.000 aparelhos eletrônicos, a maioria computadores. Os objetos, que já foram considerados sucata nos diversos setores da Universidade, aguardam um local para a sua destinação. Os diferentes componentes – dentre os quais CPUs, cabos, estabilizadores e telas – lotam todas as prateleiras e se acumulam em pilhas de caixas no chão. Esse cenário repete-se em outros locais visitados pela reportagem: uma loja de assistência técnica, uma empresa que trabalha com desmontagem de eletrônicos, a sede de um projeto social que recebe material usado para remontagem e doação. O último descarte feito por essas organizações geralmente é o envio para uma das poucas empresas especializadas em reciclagem de eletrônicos no Brasil. No entanto, muitas vezes esse material não é separado do lixo comum.

Em todo o mundo, estima-se que 40 milhões de toneladas de equipamentos sejam jogadas fora por ano, entre computadores, celulares, TVs, brinquedos e geladeiras. O lixo eletrônico, como é chamado, possui resíduos químicos perigosos. Por exemplo, o descarte no lixo comum de baterias de lítio ou níquel-cádmio e de metais pesados que alguns desses aparelhos contêm, além de substâncias resultantes da queima de certos componentes, causa prejuízos à saúde e ao ambiente. “A questão da toxicidade preocupa, mas o que preocupa ainda mais é o volume”, afirma o coordenador de gestão ambiental da UFRGS, o engenheiro Darci Campani. Há grande desperdício de plástico e metal, aumentando a quantidade de entulho nos aterros sanitários, sem falar de metais de valor, como o cobre e, em alguns casos, o ouro.

Brasil atrasado – Em fevereiro, a ONU publicou um relatório sobre o lixo eletrônico de 11 países emergentes, inclusive o Brasil. De acordo com o documento, predomina nos países estudados – entre eles a Índia, o México e a China – a coleta informal dos resíduos, isto é, a coleta feita por sucateiros, que separam alguns componentes que lhes interessam e abandonam o restante sem o devido cuidado, podendo causar vazamentos de substâncias tóxicas, além de prejudicarem a própria saúde. O relatório afirma também que o Brasil é o único dos 11 países que não tem levantamento algum a respeito da produção, do consumo e do lixo gerado por eletrônicos.

O aparente descaso brasileiro manifesta-se também no fato de não haver lei nacional específica para o lixo eletrônico. O que existe são políticas locais para o manejo de substâncias tóxicas. Em Porto Alegre, por exemplo, o lixo eletrônico era oficialmente considerado comum até há pouco; só em 2007, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam) fechou parceria com uma empresa privada que recebe esse tipo de resíduo – mesmo assim não há coleta específica, já que é o cidadão que deve levar os aparelhos até a empresa. O relatório da ONU também observa que não existe um sistema organizado de coleta nos países estudados.

A situação brasileira, no entanto, pode mudar ainda este ano, graças à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que está em votação no Congresso Nacional. O texto estabelecerá as diretrizes para o descarte de computadores, celulares e televisores, entre outros, e também nele será definido, a exemplo da regulamentação vigente na União Europeia, que a obrigação com a reciclagem é da indústria que coloca o produto no mercado, num processo chamado de “logística reversa”. Se aprovada, a Pnrs será tomada como base para a formulação de uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) a respeito do tema.

Entre soluções e problemas

A necessidade de um destino apropriado para o lixo eletrônico e a possível exigência da logística reversa, caso a PNRS seja aprovada, estão levando muitas organizações brasileiras a buscarem soluções para a sua sucata tecnológica. Poucas empresas no país trabalham com a reciclagem propriamente dita, e essas empresas costumam trabalhar apenas com um tipo de material – não reciclam todo o aparelho, apenas o plástico ou o metal. Nesse contexto, surge mercado para empresas que se proponham a receber, separar e encaminhar corretamente cada tipo de resíduo para reciclagem posterior: “Nós recebemos material de empresas de todas as regiões do estado e até de Santa Catarina”, afirma Marcus Palma, diretor de uma empresa de Novo Hamburgo que trabalha com a desmontagem de computadores. Segundo Palma, o negócio movimenta 13 toneladas por mês e está em crescimento. A maior parte dos resíduos pode ser reciclada no Brasil; as placas de circuito, que contêm metais pesados, precisam ser exportadas. Mas a empresa ainda não encontrou um destino para os disquetes, que estão acumulados em caixas.
Há projetos sociais que também se beneficiam do lixo eletrônico. Só em Porto Alegre existem três ONGs que recebem doações de computadores antigos ou que não funcionam mais. Uma dessas organizações é o Centro Social Marista, que mantém um curso técnico para jovens cuja renda familiar é de menos de meio salário mínimo por pessoa. Eles aprendem informática ao trabalhar na remontagem de equipamentos com a ajuda de educadores. Os computadores recuperados são doados a programas de inclusão digital do governo federal que propiciam acesso à internet a pessoas de baixa renda. O material excedente é encaminhado auma empresa de reciclagem em São Paulo.

O processo técnico de reciclagem em si ainda não resolve todo o problema, pois não é capaz de fazer retornar todos os componentes de um aparelho eletrônico ao ciclo industrial. Segundo o coordenador de gestão ambiental da UFRGS, Darci Campani, teoricamente seria possível reciclar um aparelho em sua totalidade, mas os processos necessários para separar determinadas substâncias – como uma pequena quantidade de ouro (cerca de 9mg em um celular) – gerariam outros poluentes, anulando o benefício da recuperação, ou seriam muito caros. Outro problema apontado é a falta de fiscalização de navios que exportam sucata, pois não há como punir o possível abandono de lixo em alto-mar.

Para Wilson Kindlein, engenheiro de materiais da UFRGS que atua na área de ecodesign, o problema maior está no fato de os projetistas não levarem em conta a necessidade posterior de reciclagem dos produtos. Acrescenta que, “se há vários materiais cujos dispositivos demontagem não permitam a desmontagem, como soldas e colagens, não é possível a desconstrução do produto e, portanto, não é possível o reuso”. Além disso, para o engenheiro, não apenas a técnica e o projeto devem melhorar, mas também a cultura de consumo da sociedade, que, por imediatismo e busca de status, descarta os produtos numa frequência maior que a necessária: “Não há necessidade de se trocar de telefone celular a cada ano”, exemplifica.
Reportagem de Diego Mandarino, estudante do 7.º semestre de Jornalismo da Fabico, no Jornal da Universidade, UFRGS, publicada pelo EcoDebate, 21/07/2010

São dispensados na natureza, em média, 14,9 milhões de pneus por ano.



Em 2006, foram reciclados no Brasil 48,1 milhões de pneus que não prestam mais para uso em automóveis, o equivalente a 240,6 mil toneladas. No mesmo ano foram produzidas no país cerca de 54,5 milhões de unidades. Outras 28,6 milhões foram importadas, sendo parte comprada para reforma e venda como pneus meia-vida. Por Thiago Romero, da Agência FAPESP.

Considerando que 18,7 milhões de peças foram exportadas no mesmo ano, fica evidente a existência de um preocupante passivo ambiental de, pelo menos, 16,3 milhões de pneus de automóvel que teriam sido dispensados na natureza naquele ano.

É o que destaca um estudo feito por Carlos Alberto Lagarinhos e Jorge Alberto Tenório, do Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais da Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo (USP). O trabalho, que apresenta as tecnologias utilizadas no Brasil para a reutilização, reciclagem e valorização energética do produto, foi publicado na revista Polímeros.

O estudo também avaliou o passivo ambiental de 2002 a 2006, com base em dados coletados em instituições como a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip), o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

“Ao calcular o número de pneus produzidos, importados, exportados e reciclados nesse período, temos uma média de 14,9 milhões de pneus que teriam sido gerados e descartados na natureza anualmente, uma vez que supostamente não houve coleta e destinação correta desse material”, disse Lagarinhos à Agência FAPESP.

O estudo lembra que em 1999 foi aprovada no Brasil a resolução nº 258 do Conama, que instituiu a responsabilidade do produtor e do importador pelo ciclo total do produto. De acordo com a resolução, desde 2002 os fabricantes e importadores de pneus no Brasil devem coletar e dar a destinação final para as peças usadas, sendo os distribuidores, revendedores, reformadores e consumidores finais também co-responsáveis pela coleta dos pneus servíveis e inservíveis (que não têm mais uso em veículos). Estima-se que um pneu leve mais de 500 anos para se decompor na natureza.

Segundo Lagarinhos, um dos pontos positivos da resolução foi a criação do cálculo que permite estabelecer o objetivo para a reciclagem de pneus, cujo percentual precisa estar acima do nível de produção a fim de eliminar o passivo ambiental existente.

“De 2002 a 2006, apenas no primeiro ano foi atingido o objetivo de reciclagem do Conama. Ou seja, de cada quatro pneus produzidos, um foi reciclado, atingindo o índice de 25% estabelecido pela resolução”, disse.

Para 2003, 2004 e 2005, a resolução nº 258 estabeleceu que o índice aumentaria, respectivamente, para 50%, 100% e 125%, porcentagem que se mantém até hoje. Ou seja, atualmente, de cada quatro pneus produzidos em todo o país, teoricamente é preciso reciclar cinco unidades, deixando de jogá-las no meio ambiente.

Economia com a reciclagem

O estudo aponta ainda que, de 2002 a 2006, foram recicladas 805,2 mil toneladas de pneus inservíveis no Brasil, o equivalente a 161 milhões de peças.
A quantidade reciclada, em unidades ou peso, é reportada anualmente pelas empresas de reciclagem e associações ao Ibama por meio do Relatório Anual de Atividades do Cadastro Técnico Federal (CTF). No caso dos pneus importados, a reciclagem de pneus antecede a liberação dos pneus novos importados.

“A resolução nº 258, apesar de estar em vigor e subsidiar a aplicação de multas pelo Ibama aos fabricantes de pneus e empresas que não cumpriram as metas de reciclagem, está desde 2005 em avaliação pelo instituto, seguindo o cronograma previsto no documento que a criou”, explicou Lagarinhos.

Entre as vantagens da recapagem e recauchutagem de pneus estão o emprego de apenas 25% do material utilizado na fabricação de um pneu novo e a economia de 57 litros de petróleo por pneu reformado. “Isso representa uma economia de 798 milhões de litros de óleo diesel por ano ao Brasil”, disse.

Segundo o pesquisador, na Europa 20% dos veículos de passeio e utilitários, 50% da frota de caminhões e 98% dos aviões das linhas aéreas internacionais utilizam pneus remoldados. No Brasil esse mercado está crescendo e, em 2006, foram produzidos 2,4 milhões de pneus remoldados.

Ainda são escassos, segundo Lagarinhos, os estudos sobre o volume de pneus produzidos, reciclados e dispensados na natureza no Brasil. “Calcula-se, segundo dados da literatura científica, a existência de pelo menos 100 milhões de unidades descartadas no meio ambiente. Esse número leva em conta toda a produção da indústria de pneus, desde sua implementação no país no fim da década de 1930”, apontou.

O descarte de pneus usados chega a atingir, anualmente, a marca de quase um bilhão de unidades em todo o mundo, segundo dados da Associação Japonesa dos Fabricantes de Pneus Automotivos.

Estudo revela que plásticos oxibiodegradáveis não se decompõem na natureza como esperado


© Miguel Boyayan – Representação da degradação e da decomposição de plásticos no solo.
Os consumidores mais atentos já devem ter notado que certas sacolas plásticas, dessas utilizadas para embalar produtos comprados em supermercados, drogarias e lojas as mais diversas, trazem a informação de que são confeccionadas com plástico oxibiodegradável. Esse tipo de plástico começou a ser produzido no final dos anos 1980 e, segundo seus fabricantes, são ambientalmente corretos porque se decompõem rapidamente na natureza. Com isso minimizariam uma série de riscos ambientais decorrentes do descarte desses produtos, como a impermeabilização do solo e a contaminação de lençóis freáticos.
Agora uma pesquisa concluída recentemente por um pesquisador brasileiro mostra que não é bem assim.
O engenheiro de materiais Guilherme José MacedoFechine, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, realizou uma bateria de testes com um tipo de plástico oxibiodegradável vendido no mercado nacional e constatou que, apesar de ele se fragmentar e virar pó, não é consumido por fungos, bactérias, protozoários e outros microorganismos – condição necessária para ser considerado biodegradável e desaparecer do solo ou da água. Por Yuri Vasconcelos, na Pesquisa FAPESP – Edição Impressa 152 – Outubro 2008.

De acordo com o pesquisador, que não quer falar os nomes comerciais dos produtos porque as empresas não foram consultadas, não é de hoje que a biodegradabilidade dos polímeros oxibiodegráveis é considerada um assunto polêmico na comunidade científica internacional. Uma corrente de estudiosos duvida se eles são, de fato, biodegradáveis. No início do ano, o governador José Serra vetou um projeto de lei da Assembléia Legislativa paulista que tornava obrigatório o uso de sacolas plásticas com o aditivo oxibiodegradável porque havia dúvidas sobre o real benefício ao ambiente. “Meu estudo comprovou que não são biodegradáveis”, afirma Fechine, que acaba de retornar da Bélgica, onde participou de um congresso internacional sobre modificação e degradação de polímeros, o Modest 2008 na sigla em inglês.

Para entender a controvérsia sobre os polímeros oxibiodegradáveis, é importante, primeiro, compreender como ocorre o processo de biodegradação desses plásticos e, em seguida, saber como eles são produzidos. A oxibiodegradação acontece em dois estágios. No início o plástico é convertido, pela ação de oxigênio, temperatura ou radiação ultravioleta em fragmentos moleculares menores. Em seguida esses fragmentos se biodegradam, o que significa que são convertidos em dióxido de carbono, água e biomassa por microorganismos decompositores. Para fomentar tal característica, os fabricantes misturam um aditivo pró-oxidante a polímeros convencionais, como polipropileno, polietileno ou outros. Esses polímeros são os mais usados para confecção de sacos e outros produtos plásticos. O aditivo pró-oxidante acaba por tornar o polímero supostamente biodegradável. Quando descartado em aterros ou lixões, o aditivo quebraria as longas cadeias moleculares que formam os polímeros, conferindo-lhe as características necessárias para ser consumido pelos microorganismos presentes no solo.
“Segundo meu estudo, a única diferença dos polímeros oxibiodegradáveis é que o tempo de fragmentação é muito mais rápido do que o dos polímeros convencionais”, afirma Fechine. “As empresas que comercializam esse tipo de aditivo pró-oxidante deveriam alertar que apenas sua presença não tornará o plástico biodegradável. Para que isso ocorra, o polímero precisaria passar por uma forte degradação prévia, causada por radiação ultravioleta ou temperatura, por exemplo, e ser descartado em solo apropriado, com pH, umidade, temperatura e presença de microorganismos que permitissem a ocorrência da biodegradação.

” Nem todos concordam com as limitações do aditivo. “Não conheço o trabalho, não sei se foi feito com o aditivo que represento, nem sei que metodologia o pesquisador utilizou. Mas posso garantir que testes conduzidos pela Ecosigma, empresa com sede em Campinas especializada em compostagem e gestão de resíduos, e com participação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Instituto Agronômico de Campinas (IAC), demonstraram que os plásticos oxibiodegradáveis fabricados com o aditivo d2w, que representamos no Brasil, são, de fato, biodegradáveis, compostáveis e não ecotóxicos para plantas superiores, minhocas e microorganismos metanogênicos [que produzem metano]”, afirma Eduardo van Roost, diretor-superintendente da Res Brasil, que comercializa o aditivo d2w para mais de 160 fabricantes brasileiros de embalagens plásticas. “Uma prova da eficiência, desempenho e segurança do nosso aditivo é o fato de ele estar presente em mais de 60 países”, complementa.

Comparação de amostras – O experimento conduzido por Fechine, que há três anos está à frente de um projeto Jovem Pesquisador da FAPESP, realizado no Departamento de Engenharia de Materiais da Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo (USP) antes de ele se tornar professor do Mackenzie, comparou a degradação de duas amostras de polipropileno, uma delas contendo o aditivo pró-oxidante e outra sem essa substância. Na primeira etapa do trabalho, as duas amostras foram previamente fotodegradadas numa câmara de envelhecimento acelerado com emissão de radiação ultravioleta. “Com isso simulamos a fotodegradação que os plásticos sofrem num aterro sanitário ou lixão em função da radiação solar que incide sobre eles”, explica o professor. As amostras foram submetidas a diferentes tempos de radiação, sendo que a mais longa exposição correspondeu a 480 horas (ou 20 dias) na câmara de envelhecimento. Ao final desse período o polímero com aditivo pró-oxidante encontrava-se em avançado estado de decomposição. “Medimos a massa molar (mede quantidade de moléculas) das duas amostras antes e depois do ensaio na câmara de envelhecimento e constatamos que o aditivo pró-oxidante realmente acelerou a fotodegradação de forma intensa, quando comparado à amostra com polímero convencional. Restava saber se, além de fragmentado, ele se tornara biodegradável”, conta o professor Fechine.

As duas amostras foram, então, sub­metidas a testes de biodegradabilidade em um terreno previamente preparado. Foram enterradas e, de tempos em tempos, coletadas para pesagem e avaliação de perda de massa. “Depois de quase dois meses constatamos que não houve perda significativa de massa para ambas as amostras. Isso quer dizer que nenhuma das duas foi consumida pelos microorganismos do solo durante esse tempo”, diz Fechine. “Nosso experimento mostrou que o aditivo acelera a fragmentação do polímero, mas não o torna biodegradável.” Um artigo com os resultados dos ensaios já foi aceito para publicação pela revista Polymer Engineering and Science, uma das mais conceituadas na área de polímeros. Intitulado Effect of UV radiation and pro-oxidant biodegradability, o artigo foi escrito em parceria com os pesquisadores Nicole Demarquette, da Poli-USP, Derval dos Santos Rosa e Marina Rezende, da Universidade São Francisco, em Itatiba, no interior paulista, responsáveis pelos ensaios de biodegradação em solo.

O ProjetoFotodegradação e fotoestabilização de blendas e compósitos poliméricos
ModalidadePrograma Apoio a Jovens Pesquisadores CoordenadorGuilhermino José Macedo Fechine – USP e Mackenzie InvestimentoR$ 59.645,00 e US$ 48.470,55 (FAPESP) [EcoDebate, 27/10/2008]

Bióloga utiliza linhagens de fungos para biodegradação de garrafas PET


A bióloga Kethlen Rose Inácio da Silva: “Processo é extremamente complexo e exige a análise de inúmeras variáveis” (Foto: Antoninho Perri)
A bióloga Kethlen Rose Inácio da Silva utilizou linhagens específicas de fungos para biodegradação de garrafas PET e de material bruto ou pellets, que são usados na produção das garrafas. Segundo a bióloga, a metodologia utilizada foi produzida em laboratório pela primeira vez na qual se utilizou a técnica de Planejamento Experimental para chegar a uma condição adequada para a biodegradação. Foram realizados mais de 600 ensaios com diversas variáveis envolvendo duas linhagens de fungos denominados Ligninolíticos, além de resíduos agroindustriais. “É um processo extremamente complexo e que exige a análise de inúmeras variáveis para verificar a interferência destes na biodegradação dos polímeros”, explica Kethlen.

Na pesquisa, orientada pela professora Lúcia Regina Durrant, a chamada fermentação semi-sólida foi o processo que mais apresentou resultados positivos. Isto porque os microrganismos crescem em condições muito semelhantes ao seu habitat natural, o que os torna capazes de produzir determinadas enzimas e metabólitos, que usualmente não seriam produzidas em outros tipos de fermentação, e se fossem o rendimento seria baixo. “Ainda são necessários outros estudos para atestar a eficiência do processo, mas trata-se de um avanço considerável”, destaca.
Kethlen já havia estudado o processo de biorremediação para resíduos agroindustriais quando realizou pesquisa de iniciação científica na FEA, em 2003. Os resultados satisfatórios levaram à possibilidade de se utilizar os polímeros para os testes. Para a bióloga, a reciclagem de garrafas PET ainda é um desafio.

Ela lembra que para conseguir reciclar uma garrafa e transformá-la novamente em produto aceitável é um longo processo no qual ocorre a produção de impactos, como o consumo de recursos naturais – água e energia –, geração de resíduos sólidos, emissões atmosféricas e efluentes líquidos, além do consumo de parte da matéria bruta. “Os estudos são iniciais e a viabilidade é questionada”, argumenta.

Neste sentido, Kethlen acredita que a melhor forma de contribuir para o meio ambiente seja desenvolver novos produtos baseados em metodologias eficientes e adequadas à gestão ambiental, como foi o processo que desenvolveu.
Matéria de Raquel do Carmo Santos, do Jornal da Unicamp, ANO XXIII – Nº 423 [EcoDebate, 26/03/2009]

Filmes biodegradáveis



Caquis embalados com filmes biodegradáveis não apresentaram proliferação de fungos ou de bactérias. Foto Embrapa



O Brasil é o terceiro maior produtor mundial de frutas, com cerca de 41,2 milhões de toneladas anuais. A informação é da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO, da sigla em inglês). Porém, sua conservação e o lixo gerado pelos plásticos utilizados em embalagens de frutos inteiros, ou mesmo pré-cortados, vêm gerando um sério problema ao meio ambiente. Em busca de uma solução para isso, muito tem sido investido no estudo de filmes biodegradáveis – espécie de plástico biológico, produzido a partir de substâncias que se decompõem rapidamente na natureza e que podem até ser ingeridas pelo homem, como o amido, por exemplo – em substituição aos plásticos comumente usados. No bairro de Guaratiba, Zona Oeste do Rio, um grupo de pesquisadores coordenados pelo engenheiro agrônomo Carlos Wanderlei Piler de Carvalho, pesquisador da Embrapa Agroindústria de Alimentos, tem buscado, desde 2008, formar profissionais especializados no estudo das aplicações e propriedades desses materiais no armazenamento de maracujá, tangerina e caqui – principais frutos cultivados no estado. O projeto conta com recursos do edital Apoio a Grupos Emergentes de Pesquisa e também do programa de Treinamento e Capacitação Técnica (TCT).

O estudo investigou os filmes biodegradáveis feitos à base de amido (carboidrato de origem vegetal presente no milho, mandioca e batata, entre outros), alginato (substância extraída de algas marinhas e que, adicionada aos alimentos, mantém, melhora ou modifica sua textura e aparência) e quitosana (substância derivada da quitina, presente no esqueleto externo de crustáceos, como camarão, caranguejo e lagosta). Os filmes estudados foram produzidos por duas técnicas: casting e extrusão. “A técnica de casting consiste em depositar sobre um molde uma solução polimérica (amido e outros agentes) que, ao ser espalhada sobre essa superfície, tem o líquido eliminado, formando uma película ou filme bem fino”, ensina o pesquisador. Um exemplo prático seria o resíduo de cor marrom deixado no fundo do copo ou xícara após tomarmos um cafezinho. Ou seja, após certo tempo, sem a água, os pigmentos marrons do café ficam depositados no fundo, formando uma película fina. “Deste modo, trabalhamos de forma a desenvolver vários filmes sobre superfícies lisas, tal como a superfície de alguns frutos”, acrescenta. Já a técnica de extrusão usa a combinação de cisalhamento (atrito), alta temperatura e pressão por um curto período de tempo para a formação de materiais moldados.

Os resultados obtidos até o momento foram relativos ao caqui. Experimentos com maracujá e tangerina ainda estão em andamento. “Em relação à vida útil, conseguimos conservar por até 42 dias um caqui inteiro com uso de filme comestível e armazenamento refrigerado”, complementa. Também foi feita uma análise dos agentes inibidores do crescimento com os filmes. “A principal função desses agentes é não permitir que os componentes do filme sirvam como alimento para o crescimento de micróbios nos frutos. Caso isso ocorresse, os benefícios da contenção do amadurecimento e melhora na apresentação do produto seriam anulados”, afirma o pesquisador. “Nosso estudo comprovou que não houve formação de fungos nem de colônias de micróbios na superfície do caqui inteiro nem na do pré-cortado”, complementa.

Outro ponto investigado foi a permeabilidade dos filmes. “Observamos que a troca de gases entre esses materiais e o meio ambiente foi suficiente para não permitir a falta de oxigênio e retardar o amadurecimento dos frutos. Além disso, houve redução da perda de massa pela redução da perda de umidade do caqui”, recorda o agrônomo. Carlos Piler ressalta que testes até o momento foram todos feitos no espaço da Embrapa Agroindústria de Alimentos. ”A expectativa é que encerrado o projeto, os filmes com as características desejáveis possam ser utilizados em larga escala pelos produtores, obedecendo os critérios de tecnologia adotados por nossos parceiros”, acrescenta.

Carlos Piler chama a atenção para o aspecto mais importante dos dois editais: a formação de recursos humanos. “Até o momento, já foram defendidas duas teses de mestrado na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ): uma sobre o uso de revestimento em caqui pré-cortado e outra com filmes comestíveis à base de amido. Outras duas teses de doutorado estão sendo desenvolvidas no Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na UFRRJ, sobre maracujá e acerola, respectivamente”, explica o agrônomo. Ele ainda destaca a realização de estágios supervisionados por estudantes de graduação, treinamento de alunos de pós-graduação, a contratação de uma pesquisadora especializada para participar da equipe e a realização do II Simpósio Internacional de Extrusão de Alimentos, em junho deste ano. Por último, o pesquisador enfatiza o apoio da Fundação para a consolidação de seu grupo de pesquisa. “Graças a ele, podemos consolidar nossa linha de pesquisa em filmes comestíveis biodegradáveis para aplicação em embalagens de frutos, iniciado na Embrapa Agroindústria de Alimentos”, conclui.
Reportagem de Vinicius Zepeda, da FAPERJ, publicada pelo EcoDebate, 27/07/2010

Política Nacional de Resíduos Sólidos


Uma lei que não pode ir para o lixo, artigo de José Oswaldo Cândido Júnior


Depois de duas longas décadas de tramitação no Congresso – dos quais 19 anos somente na Câmara dos Deputados – o Senado finalmente aprovou, no início de julho, a lei que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) do País.

Para nós brasileiros, que ficamos chocados com a tragédia do Morro do Bumba, em Niterói, quando dezenas de pessoas morreram soterradas por um lixão, essa é uma grande vitória. Daqui a quatro anos, por exemplo, não poderá haver mais lixões no País.

A PNRS é um avanço institucional importante para nortear o tratamento e a gestão integrada do lixo, que é reconhecido pelo MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE como nosso maior problema ambiental. De fato, a produção de lixo alcança 156 mil toneladas por dia. Desse total, 50% vão para os chamados “lixões” ou tem destinação desconhecida, conforme estimativas das entidades de classe do setor. Em 2008, apenas 405 dos 5.564 municípios brasileiros faziam coleta seletiva de lixo.

Assessorei o senador César Borges na apresentação do parecer sobre a matéria e vi que aprovar a proposta neste primeiro semestre foi uma grande vitória do Senado, porque foi preciso superar a tramitação por quatro comissões combinadas ao ano de Copa e eleição.

Qualquer atraso seria fatal. Para contornar os obstáculos, a estratégia do senador, que já estava indicado relator pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), foi buscar apoio para fazer o processo legislativo de forma simultânea nas comissões.

Pelo esforço, o senador baiano foi indicado relator do tema em mais duas comissões. Ele próprio pediu audiência pública conjunta para debater o projeto com a sociedade e, logo depois, as comissões se reuniram para votação conjunta, aprovando as cinco mudanças propostas por ele. Eu testemunhei especial consenso entre empresários, organizações sociais, cooperativas de catadores e o governo federal de que era preciso aprovar aquela proposta. A própria ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, elogiou o trabalho do relator pela rapidez e precisão.

De fato, não era possível esperar mais. O setor de reciclagem no Brasil já movimenta R$ 12 bilhões ao ano, mesmo sem os incentivos e a segurança de um marco regulatório. O potencial de expansão é enorme, pois apenas 13% do lixo nas cidades são reciclados. Além disso, as estimativas hoje apontam para a existência de um milhão de catadores, que auferem um ganho médio de um salário mínimo e meio nas regiões Sudeste e Sul e de um salário mínimo no restante do País. Portanto, trata-se deumprojeto de largo alcance social e econômico.

O eixo da PNRS é o princípio da responsabilidade compartilhada, em que fabricantes, importadores,distribuidores,comerciantes, consumidores e poder público dividem tarefas com relação ao manejo sustentável dos resíduos. Para isto, Estado e município instituirão seus próprios planos de gestão dos resíduos sólidos, assim como determinados segmentos econômicos. A prioridade é a articulação entre as três esferas do poder público e destas com o setor empresarial, com o objetivo de encontrar soluções para a gestão dos resíduos.

Outra boa novidade da PNRS é a instituição da logística reversa, que inverte o trajeto que levou o produto até o consumidor. Assim, o produto com vida útil esgotada, como pilhas, baterias, pneus,óleos lubrificantes,lâmpadas e eletroeletrônicos terá que ser devolvido ao vendedor, que fará seu retorno aos distribuidores e daí aos fabricantes, para reciclagem.

A lei prevê que a logística reversa será, progressivamente, estendida a produtos comercializados em embalagens plásticas, metálicas ou de vidro.

O longo tempo para ser aprovada não envelheceu a PNRS, como disse o senador. A lei nasce moderna, baseada na premissa de que a deposição do resíduo no aterro deve ser a última opção de um processo antecedido pela não-geração de lixo, a redução da emissão, a reutilização, a reciclagem e a queima para geração de energia. A lei é ambiciosa, mas sabemos que o lixo das ruas só vai acabar se estivermos comprometidos em obedecer a PNRS. É nosso trabalho fazer com que esta lei não vá para o lixo.
José Oswaldo Cândido Júnior Economista do IPEA, doutor pela FGV e co-autor do livro Economia do Meio Ambiente Artigo originalmente publicado no jornal A Tarde, BA.
EcoDebate, 27/07/2010

Alimentação Escolar


A Lei Federal nº. 11.947 de 16 de junho de 2009, prevê que parte dos alimentos utilizados nas escolas públicas do Brasil sejam adquiridos da agricultura familiar. O aumento da qualidade da alimentação escolar, o desenvolvimento da agricultura familiar e o incentivo à economia local são fatores dinamizados através desta iniciativa. A compra deve ser feita diretamente dos produtores locais pelas escolas, conforme Resolução FNDE nº. 38 de 16/07/2009, que determina que dos recursos repassados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) aos estados e municípios para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) no mínimo 30% devem ser utilizados para a aquisição de alimentos diretamente dos agricultores familiares, empreendedores familiares rurais ou suas organizações (cooperativas, associações), priorizando assentamentos, comunidades indígenas e quilombolas (Artigo 14, Lei 11.947/2009).

Os preços pagos aos agricultores devem ser compatíveis com o mercado, calculados através de uma média dos preços praticados por três mercados varejistas locais. Os alimentos fornecidos devem atender exigências sanitárias e de controle de qualidade estabelecidas pelas normas e legislações relacionadas. Os agricultores podem ser organizados em grupos a) informais:
agricultores familiares que possuem Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP) como pessoas físicas e b) agricultores familiares ou empreendedores rurais organizados em cooperativas e associações que possuem Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP) como pessoas jurídicas. Estar cadastrado no Programa Nacional da Agricultura Familiar é requisito fundamental para participar do Projeto de Vendas de Gêneros Alimentícios da Agricultura Familiar para a Alimentação Escolar.

Os grupos informais devem ser representados junto às unidades executoras das escolas (caixas escolares) por uma Entidade Articuladora que será a responsável técnica pela elaboração dos projetos e contratos de vendas, que devem conter cronograma de entregas, prazos e formas de pagamentos. A orientação das Entidades Articuladoras é imprescindível, considerando que os agricultores familiares de grupos informais (formais também) precisam anexar uma série de documentos como CPF ou CNPJ, cópia da DAP, certidões negativas de débitos e projetos de vendas assinado por todos os participantes. No RS as Entidades Articuladoras são a EMATER/RS, Sindicatos de Trabalhadores Rurais – STRs e Sindicato dos Trabalhadores na Agricultura Familiar – Sintraf/RS. As Entidades Articuladoras precisam ser cadastradas no SIMBRATER (Sistema Brasileiro de Assistência e Extensão Rural). O limite individual de vendas é de R$ 9.000,00 DAP/ano.

É importante que os gestores do ensino público como secretários estaduais, municipais, diretores de escolas, agentes educacionais conselhos e comunidades escolares estejam conscientes dos benefícios para a saúde, sociais e econômicos dos alimentos com origem na agricultura familiar, adequando suas gestões e atividades ao cumprimento da Lei 11.947/2009. Ao mesmo tempo é indispensável que os agricultores e suas entidades de apoio, classe e produção (Centros de Assistência e Extensão Rural, sindicatos, cooperativas, associações) se mobilizem para participarem desta grande conquista, que garante mercado aos produtos da agricultura familiar e melhoram as condições alimentares nas escolas, prevenindo doenças como desnutrição, obesidade infantil, dificuldades de aprendizagem e outras relacionadas com os excessos de consumo de alimentos industrializados, excessivamente calóricos e com pouco valor nutricional.
Colaboração de Antonio Silvio Hendges

segunda-feira, 26 de julho de 2010

inSustentabilidade! Eis o ‘momentum’


A mídia traz a todo o momento informações sobre aquecimento global, emissão de gases nocivos, exaustão dos recursos naturais, vazamentos de óleo, desmatamentos, conflitos armados. Um cenário áspero.

Preservar a vida com alguma dignidade é uma questão de interesse global e envolve o nosso futuro e o das próximas gerações. No entanto as questões relacionadas ao desenvolvimento sustentável e habitabilidade da terra por serem mais recentes e menos conhecidas pouco ou quase nunca abordadas pela maioria das pessoas.E isto deveria ser diferente.
Com o intuito de fomentar a discussão e articular os argumentos necessários à reflexão introduzo um tema que vejo ser um dos mais críticos e complexos quando tratamos de humanidade e dos ecossistemas garantidores de sua existência: o modelo de produção e a forma como consumimos.

O esgotamento do atual modelo socioeconômico.

O sistema vigente resulta num pesado ônus político e socioambiental. E tende a se agravar em médio e longo prazos comprometendo sobretudo a qualidade de vida no futuro.
A ameaça de exaustão dos recursos naturais por conta da elevada e crescente demanda por alimentos e bens de consumo aliada à deterioração das relações de troca entre trabalho e capital resultou num perverso enriquecimento de minorias relegando à maioria a condição de pobreza. Isto levou ao enorme distanciamento socioeconômico entre classes sociais entre as nações. E nesta cadencia o cenário inexoravelmente se agravará .

No âmbito climático rios transbordam na Suíça, no Brasil, nos EUA, na Alemanha e na China com freqüências cada vez maiores.Estudos do IPCC apontam para uma diminuição da quantidade de “dias frios” e aumento dos “dias quentes”. No Ártico, na Cordilheira dos Andes e na Europa central as camadas de gelo e neve estão derretendo.

No econômico, o cientista inglês Nicholas Stern relata em seu estudo que cuidar do clima do planeta custaria entre 1 ou 2% do PIB mundial, mas os países ricos, principais poluidores ainda hesitam em agir. O grupo dos “economicamente desenvolvidos” atravessa a pior crise financeira dos últimos 70 anos, com elevados indices de desemprego. Países vão à falência e ameaçam arrastar junto boa parte da zona do euro.

Enquanto lemos este artigo centenas de pessoas morrem em decorrência de conflitos armados ou da pobreza extrema na Africa, Oriente Médio e Ásia.Vetores que tendem a evoluir sem exceção, seja em países ricos ou pobres.

Estudos recentes elaborados por instituições acreditadas apontam que considerando-se os atuais padrões de consumo da população mundial hoje exige 2.5 planetas Terra adicionais para que dê conta de sua demanda por alimento, lazer e conforto.Estamos falando de Pegada Ecológica,assim é conhecido o indicador que aponta o esforço do planeta para sustentar a atual civilização.Procure na web por Footprint ou então no site www.wwf.org.br/pegadaecologica.

Para se ter uma boa noção do impacto sobre o planeta é interessante observar que levamos 300 mil anos para nos tornarmos 2.5 bilhões de pessoas em 1950. E desde então até os dias de hoje, aumentamos e somos mais de 6,7 bilhões de seres humanos, consumindo muito de tudo. Portanto em apenas 60 anos a população mundial mais que dobrou e a velocidade do consumo destes recursos também cresceu de forma vertical.

Não é a toa que o planeta aqueceu.Vamos considerar que apenas uma parte significativa da população mundial, pertencente aos países conhecidos por “economias emergentes”, formada por chineses, indianos e brasileiros desejem, por exemplo, adquirir um automóvel, uma geladeira, um forno de microondas, viajar de avião, ou ainda comer carne ou pescado. Anseios, originais e meritórios, que representam alguns itens de consumo e conforto no mundo contemporâneo mediano.

Discorrendo de modo singular sobre as conseqüências ambientais para atender esta demanda, veja o que poderia acontecer.

• Haveria aumento da demanda por combustível fóssil. Maior extração e refino para produzir os combustíveis para viabilizar toda a logística envolvida. Impacto gerado: aumento das emissões de gases efeito estufa (gee) e por conseqüência do aquecimento global, contaminação do solo e dos recursos hídricos. Vazamentos de óleo durante a extração (BP/Golfo do México) ou armazenamento (Petrobras/Baia da Guanabara-2000) acontecem
• Crescimento da extração de minério para fabricação do aço necessário para a manufatura dos bens. Impacto gerado: degradação do solo, açoreamento de rios e lagos, desmatamento, demandam adicional de energia e por conseqüência maior emissão de gases efeito estufa além de outros poluentes pesados na atmosfera, nos rios e oceanos.
• Intensificação do uso de energia para operação dos equipamentos de produção de bens duráveis e de consumo. Impacto gerado: sobrecarga na temperatura global por conta da queima do combustível fóssil e pelo alagamento de novas áreas, hoje florestadas, para produção de mais energia hidrológica; aumento de resíduos tóxico e nucleares.
• Aumento da demanda em toda a cadeia da matéria–prima, mão de obra e insumos secundários para a manufatura, logística de entrega e emprego de componentes agregados como papel, plástico,aço. Impacto gerado: superexploração dos recursos naturais e maior exposição dos biomas ao risco de exaustão e extinção
• Aumento na demanda por alimentos. Impacto gerado: intensificação do desmatamento e da degradação da terra pela cadeia do agrobusiness, exaustão dos aqüíferos por conta de métodos inadequados de plantio e irrigação. Só para citarmos alguns.
Contudo, para que a exposição não pareça parcial há que se considerar que não se trata apenas de uma cadeia de destruição e ônus que se impõe.Há também uma corrente paralela de construção e de benefícios e isto nos permite uma reflexão comparativa sobre a relação.Infelizmente esta relação é marcada por um profundo desequilíbrio, pois o regime socioeconômico vigente, excludente, não permite que a maior parte das populações possa usufruir de benefícios como alimentos, medicamentos, tecnologia e o que é pior, aqueles que podem, em sua maioria o fazem de forma perdulária.

Em 2030 seremos 9 bilhões de habitantes. Seria este o momento da profunda e extensa reavaliação necessária dos princípios e valores vigentes, uma vez que civilização atual se encontra próxima do limite de esgotamento de seus recursos naturais?
Grande parte das fronteiras à sobrevivência estão mapeadas. Já sabemos quais são e onde estão. Resta agora o mais complexo que é conceber quais serão os novos fundamentos socioambientais para uma inovadora hegemonia global e quais os paradigmas econômicos viáveis para esta nova era.

Como conciliar os anseios de uma sociedade que aprendeu a cultuar e adorar a imagem do excesso de oferta á um cenário de limitação e escassez no futuro?

Kant e o IluminismoA última grande revolução de idéias que efetivamente transformou o mundo foi no primeira metade do século XVIII com o Iluminismo, quando houve uma convergência de tendências filosóficas, sociais, políticas,intelectuais e religiosas. Resultando num vasto conjunto de valores e de novos princípios estruturais e pragmáticos que nos nortearam até os dias de hoje.Nos tornamos a evolução daquele momento e agora nos damos conta de que precisamos de outra grande era de transformação.

Como definiu o grande pensador Immanuel Kant: “O Iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem. É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma deficiência do entendimento mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem para fazer uso da tua própria razão! – esse é o lema do Iluminismo”.
E é disso que precisamos.
Laércio Bruno Filho – Professor Convidado do MBA PECEGE da ESALQ/USP

Nós fazemos parte da natureza


Ler e escrever são habilidades básicas e um exercício para a vida toda. Mas é preciso que os jovens também saibam compreender aquilo que leem. Outra disciplina fundamental é a de Ciências, porque fazemos parte da natureza e é importante sabermos como ela funciona. Física, Química e Biologia nos ajudam a entender o mundo onde vivemos. Geografia e História, classificadas como ciências humanas, também são excelentes maneiras de levar os jovens a compreender a atuação do homem ao longo dos séculos, a ocupação do planeta, a fundação das cidades e o desenvolvimento econômico. E tudo isso tem muito a ver com a Matemática, que envolve medidas, distâncias, valores e cálculos.

Enfim, para a boa compreensão de que fazemos parte da natureza, é necessário termos uma visão integrada do planeta, com seus mares, rios, florestas e montanhas, e seu imutável ciclo de transformação e renovação. A pureza do ar que respiramos, a água como o suporte da vida, a integração da fauna e da flora e o solo gerador de nutrientes para todas as espécies são elementos básicos para a educação fundamental.

Através dessa visão, surge a consideração por todas as espécies e pelos semelhantes, incentivando a paz e o progresso. Por outro lado, é preciso ter atenção. Devem ser evitados os ensinamentos dogmáticos. A compreensão da sequência lógica nos acontecimentos naturais é vital para o desenvolvimento do raciocínio claro e da reflexão intuitiva. Não há espaço para misticismo.

Os alunos precisam se basear em modelos adequados, até que, com seu próprio discernimento, assumam as atitudes que julgarem mais apropriadas. Eis aí a grande importância dos professores: eles devem ser capazes de mostrar a sua humanidade através das atitudes, pois máquinas para ensinar e entreter as crianças já existem aos montes. A presença do professor é indispensável, pois é sempre útil seguir as pegadas de quem abriu caminhos.

A natureza é o grande laboratório para o nosso aprendizado, além de ser o mais belo presente que a humanidade recebeu. Dela obtém-se a água que a tudo sustenta e os alimentos para conservação do nosso corpo. Com nossa inteligência e capacidade de transformação, conseguimos grandes avanços, mas a um custo muito grande para o planeta. A forma como exploramos as riquezas naturais, a falta de consideração para com o semelhante, e a quantidade de lixo que geramos chegou a um limite perigoso, ameaçando não apenas as várias espécies animais e vegetais, como também a nossa própria sobrevivência.

Estamos atravessando uma fase conturbada. As pessoas estão se perdendo pela falta de propósitos, o que demonstra a necessidade de fazermos profundas mudanças. Sem a contribuição da intuição e do bom senso, cometemos muitos erros. Já é visível o anseio por uma forma de vida menos desgastante, com mais alegria e cooperação, sem destruição do meio ambiente e que propicie a evolução real.
* Benedicto Ismael Camargo Dutra, graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP.

Saneamento e renda: 114 milhões de brasileiros ainda não dispõem de sistema de coleta de esgotos




Apesar do avanço do saneamento básico nos últimos anos, estima-se que 114 milhões de brasileiros ainda não dispõem de sistema de coleta de esgotos. Doenças decorrentes da falta de saneamento básico, como diarreia, estão entre as principais causas das mortes de crianças no País.
Só isso já seria mais do que suficiente para levar os governos brasileiros a investir bem mais do que vêm investindo em saneamento básico, para o País atingir com mais rapidez a meta de universalização, isto é, o atendimento de toda a população com esse serviço.

Mas, além dos prejuízos à saúde da população, a falta de saneamento básico tem também efeitos econômicos nocivos que justificariam até financeiramente a aceleração dos programas de extensão das redes de água e dos sistemas de coleta e tratamento de esgotos. É o que mostra a pesquisa Benefícios econômicos da expansão do saneamento brasileiro elaborada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo e pelo Instituto Trata Brasil, uma organização criada para mostrar a urgência da universalização do saneamento básico.

Com base em estatísticas conhecidas e em comparações de dados de regiões onde os serviços de saneamento básico já atingem quase toda a população e daquelas em que a maioria dos habitantes carece desses serviços, o estudo conclui que a falta de água tratada e de redes públicas de coleta de esgoto reduz a produtividade do trabalhador e, assim, reduz sua renda média. Além disso, a falta de saneamento impõe custos adicionais ao sistema nacional de saúde, impede a valorização do principal bem de muitas famílias de baixa renda (que é sua moradia) e condena à estagnação regiões com alto potencial para o turismo e que poderiam gerar muito mais emprego e renda.

É fato notório que a falta de coleta de esgotos provoca doenças infecciosas que levam ao afastamento das pessoas doentes do trabalho. As pessoas infectadas que permanecem trabalhando têm desempenho inferior ao de seus companheiros, ou seja, têm menor produtividade, pois estão com a saúde abalada. Essa deficiência tem um custo econômico que pode ser avaliado de diversas formas. Segundo a FGV, o prejuízo das empresas com as horas pagas, mas não trabalhadas – por afastamento do trabalhador para tratamento de doenças infecciosas em geral provocadas por más condições de saneamento nos locais onde vive -, pode chegar a R$ 547 milhões por ano.

Trabalhadores que vivem em cidades nas quais os serviços de saneamento atendem a praticamente toda a população ganham, em média, 13,3% mais do que os que vivem em locais sem coleta de esgoto. Tendo esse diferencial como base e levando em conta a renda média dos brasileiros e o número de trabalhadores que não dispõem de serviços adequados de saneamento básico, a FGV calculou que, se o País alcançasse a universalização desses serviços, a massa salarial, de R$ 1,1 trilhão, poderia aumentar R$ 41,5 bilhões.

Eis aí um programa de renda democrático e apolítico, que não escolhe pessoas ou famílias beneficiadas, pois não exige inscrição prévia em órgãos públicos. Curiosamente, o ganho de renda “é praticamente o custo da universalização do sistema de coleta e tratamento de esgoto no Brasil, estimado em R$ 49,8 bilhões”, observam os autores do estudo.

E o programa teria ainda outros benefícios para as finanças públicas, entre eles a redução dos gastos com internações hospitalares em razão de infecções intestinais causadas por más condições de saneamento. Do ponto de vista social, reduziria em 65% o índice de mortalidade entre os pacientes internados com infecções gastrointestinais, o que significa que 1.277 vidas seriam salvas anualmente.

Para as famílias de baixa renda que hoje vivem em más condições de higiene, a universalização do saneamento básico poderia significar a valorização de até 18% de sua moradia, que é seu principal ativo econômico. Para as regiões com potencial turístico reprimido por falta de saneamento básico, a universalização traria investimentos, empregos e mais renda.
* Análise originalmente publicada no
O Estado de S.Paulo.
EcoDebate, 26/07/2010

Alemanha: As lições de um país verde


O que o mundo tem a aprender com a Alemanha, nação que prevê produzir 100% de sua eletricidade com fontes limpas até 2050


O país que produz quase metade da energia solar no mundo tem mais dias nebulosos que ensolarados. Parece, no mínimo, um investimento equivocado, mas o motivo de as coisas serem desse jeito explica, em grande parte, o porquê de a Alemanha estar à frente na batalha contra a dependência dos combustíveis fósseis – intensificada com o combate ao aquecimento global e, agora, ainda mais urgente depois do vazamento de petróleo no Golfo do México. Desde muito cedo, os alemães reconheceram a importância da transição para uma economia mais limpa e, recentemente, começaram a colher os frutos de seu pioneirismo.

A Alemanha parece estar em um ritmo completamente diferente das grandes potências. Enquanto a maré negra se espalha e o Brasil só tem olhos para a exploração do pré-sal, os alemães anunciaram uma meta arrojada: em 2050, a previsão é de que toda a eletricidade produzida no país venha de fontes renováveis, como solar, eólica ou biomassa. No ano passado, as fontes alternativas responderam por 16,1% da eletricidade gerada no país. Reportagem de Priscila de Martini, no Zero Hora.

O segredo alemão não é nenhum mistério, e a própria Alemanha busca disseminar as experiências que deram certo para o resto do mundo. O primeiro fator foi uma mudança de postura, que para os europeus ocorreu já na década de 70. Ao contrário dos demais países, a Alemanha resolveu responder à crise do petróleo da época com o investimento em energias limpas. O resultado são décadas de estudos que levaram o país à liderança em tecnologia no setor. Grande parte dos mais modernos equipamentos – de células solares fotovoltaicas a turbinas eólicas – é produzida em território alemão.

– Há muito intercâmbio com a Alemanha, mandamos muitos pesquisadores para universidades de lá. Inclusive, temos aqui na UFRGS um pequeno gerador eólico de uma empresa alemã – diz o peruano Harold Deza Luna, pesquisador em energias renováveis do Laboratório de Transformação Mecânica da UFRGS.

Mas não é só tecnologia que a Alemanha exporta. A legislação criada pelo país para impulsionar a produção de energia renovável foi copiada por cerca de 70 nações mundo afora. A principal delas entrou em vigor em 2000: a Erneuerbare-Energien-Gesetz, conhecida pela sigla EEG – que, segundo Luna, é a maior lição alemã para o Brasil. É o que pensa também a americana Piper Foster, da Sopris Foundation, dos EUA.

– Essa é a medida isolada mais poderosa para combater as mudanças climáticas e incentivar as energias renováveis – disse a pesquisadora, que está há mais de um ano em Berlim para estudar as experiências alemãs no desenvolvimento de energias limpas.
EEG, todo cidadão pode montar uma pequena central de energia de fontes renováveis, que é ligada à rede elétrica. As operadoras do país são obrigadas a comprar o que for produzido em excedente, pagando tarifas preestabelecidas, que valem por 20 anos. Os valores variam de acordo com o tipo de energia, sendo mais altos para as fontes que custam mais e que precisam ser mais desenvolvidas, como a solar fotovoltaica. A diferença de preço é repassada para os consumidores, que têm um pequeno aumento na conta de luz. Assim, o custo-benefício da instalação da tecnologia para esse tipo de energia torna-se muito interessante.

Muitos governos ainda não fazem grandes investimentos em energias renováveis devido ao alto custo. Isto, segundo Piper, é um erro que poderá colocar empresas e países em uma situação muito vulnerável no futuro.

– Quando as pessoas dizem que energia renovável é cara, ignoram o fato de que o preço dos combustíveis fósseis está aumentando e que carvão, gás natural e petróleo estão acabando. Apesar de o custo das energias renováveis ser mais alto no início, podemos prever seu custo no longo prazo, porque vento e sol são gratuitos – finaliza.
EcoDebate, 26/07/2010

Na contramão da redução de emissões a demanda mundial de carvão é cada vez maior



Infográfico do percentual de geração de energia a partir do carvão. Fonte: Der Spiegel

Usinas de energia a base de carvão são grandes geradoras de CO2, gás que contribui para o efeito estufa, mas não há alternativa para o combustível no futuro próximo. As companhias de energia esperam que a captura de carbono e as tecnologias de armazenamento sejam a resposta, mas muitos moradores locais não querem que o CO2 seja armazenado em seus quintais.

Quando Rolf Martin Schmitz, gerente da gigante energética alemã RWE, viajou para a ilha de Sylt no Mar do Norte no verão passado, viu imediatamente as placas. Ao longo das estradas do estado de Schleswig-Holstein no norte da Alemanha, foi recebido com imagens de crânios. Os moradores colocaram placas para protestar contra os armazéns subterrâneos de dióxido de carbono que poderão ser construídos na região. Reportagem de Frank Dohmen, Alexander Jung e Wieland Wagner, em Der Spiegel.

Os cidadãos temem o perigo de vazamento do gás, que pode ser prejudicial em altas concentrações, e outros riscos à saúde. Schmitz, por outro lado, está preocupado com o futuro de sua companhia.

Schmitz é chefe de operações da RWE na Alemanha, a segunda maior produtora de eletricidade do país, cuja principal fonte de energia é o carvão. Queimar o material gera quantidades imensas de CO2, um dos gases responsáveis pelo efeito estufa. As companhias de energia estão trabalhando a toda velocidade para desenvolver tecnologias de captura e armazenamento de carbono, que envolvem capturar o CO2 e armazená-lo sob o solo. Schmitz acredita que a tecnologia oferece uma forma de resolver os problemas de emissão causados pelas usinas de energia elétrica que usam o carvão.

Resistência ferrenha

Para Schmitz, é incompreensível que os locais de armazenamento de gás que foram planejados estejam enfrentando tanta resistência, principalmente porque já existiam estruturas de armazenamento de gás natural sob o solo no norte da Alemanha há décadas, que nunca foram vistas como um perigo. “De repente isso virou uma obra do demônio”, disse ele surpreso.
Na última quarta-feira, Schmitz se sentiu um pouco aliviado. Foi quando o ministro da Economia alemão Rainer Brüderle, membro do partido FDP que é a favor das empresas, e o ministro do Meio Ambiente Norbert Röttgen, que pertence ao conservador CDU, lançaram, num raro momento de harmonia, uma lei para regulamentar a construção de depósitod de CO2. De acordo com a nova legislação, os armazéns poderão testar a nova tecnologia, pelo menos em algumas instalações-piloto. Röttgen avaliou a medida como “uma contribuição importante para a proteção ao clima”, enquanto Brüderle jurou que a tecnologia “não poderia ser mais segura”.

As companhias de energia também veem o sinal verde de Berlim para a tecnologia como um sinal de que a eletricidade gerada por carvão tem um futuro na Alemanha novamente. Quase metade de toda eletricidade gerada na Alemanha vem do carvão, e a porcentagem é ainda maior em outros países. Na China, por exemplo, é de mais de 80%, e a demanda lá só deve crescer.

Demanda crescente

O carvão está passando por uma retomada fenomenal em toda parte. A demanda cresceu consideravelmente, transformando o carvão na segunda maior fonte de energia em todo o mundo, depois do petróleo. Bilhões de pessoas dependem do carvão para o fornecimento de energia.

Especialistas da Agência Internacional de Energia (IEA) em Paris estimam que a demanda pelo carvão aumentará nas próximas duas década muito mais do que por qualquer outra fonte de energia, exceto a eólica e solar, e passará dos níveis atuais de cerca de 6,7 bilhões de toneladas por ano para quase 10 bilhões de toneladas em 2030. A China e a Índia são as principais responsáveis pelo aumento da demanda de carvão, e os dois países já respondem por mais da metade da demanda global. De acordo com o IEA, eles terão mais do que duplicado seu consumo de carvão até 2030. Na China, quase toda semana uma nova usina elétrica a base de carvão é colocada para funcionar.

O carvão move máquinas, ilumina apartamentos e casas, aquece fornos e movimenta trens de alta velocidade. A matéria-prima que tornou a industrialização possível no século 19 continua sendo um elemento essencial da vida moderna no século 21.

Políticos de todo o mundo, especialmente da Alemanha, podem se entusiasmar o quanto quiserem com os possíveis benefícios das fontes renováveis de energia, mas quando o governo da Alemanha divulgar sua nova estratégia energética nos próximos meses, ele também incluirá o carvão como parte da mistura energética. A verdade suja é que o futuro do fornecimento de energia do mundo é negro. Dadas as alternativas, o que mais pode ser?

Abundante e barato

Muitas pessoas acham a energia nuclear muito perigosa. A produção de petróleo bruto está ficando cada vez mais difícil e cara. O gás natural gera uma dependência de fornecedores temperamentais. E as energias solar, eólica e hidrelétrica não estão suficientemente desenvolvidas ainda para cobrir uma grande fatia do fornecimento de energia. Então resta o carvão, consagrado pelo uso.

Nenhum outro combustível fóssil está disponível em tamanha quantidade; as atuais reservas de carvão durarão por gerações. Nenhum combustível fóssil é tão barato. Custa apenas cerca de 5 centavos de euro (cerca de US$ 0,06 ou R$ 0,11) para gerar um quilowatt-hora de eletricidade a partir do carvão, comparado com cerca de 40 centavos (R$ 0,90) a partir da energia solar. E nenhum combustível fóssil tem uma distribuição tão ampla. Todos os continentes têm reservas adequadas e, diferentemente do petróleo, a maior parte dessas reservas são encontradas em regiões relativamente estáveis em termos geopolíticos, como a América do Norte, Europa e Austrália.

Mas nenhuma outra matéria-prima é tão devastadora para o meio ambiente quando usada. O carvão é o pior vilão do clima na história da humanidade.
O carvão tem um alto custo ambiental. Quase um quilo de dióxido de carbono é emitido para gerar um quilowatt-hora de eletricidade a partir do carvão negro, e as emissões do linhito são ainda mais altas. Em comparação, uma indústria de energia de gás moderna emite cerca de 350 gramas de CO2 por quilowatt-hora gerado, enquanto a energia nuclear é responsável por cerca de apenas 30 gramas.

Em outras palavras, não é a geologia que define os limites do crescimento. Em vez disso, as preocupações ambientais levantam dúvidas quanto à viabilidade futura do combustível. “O carvão é o problema ambiental do século 21”, diz Ottmar Edenhofer, economista-chefe do Instituto Potsdam para a Pesquisa do Impacto Climático. A menos, é claro, que possamos encontrar uma forma de usar essa fonte energética sem destruir o ambiente. Será que o carvão limpo é algo concebível?

Intervenções brutais na natureza

A ideia do carvão limpo parece absurda para qualquer um que já tenha espiado a cratera da mina aberta de linhito de Garzweiler. A mina, que é localizada perto da cidade de Colônia no Estado alemão de North Rhine-Westphalia, tem cinco quilômetros de diâmetro e mais de 200 metros de profundidade. Ela foi escavada pelas maiores escavadeiras do mundo, e a cada dia elas retiram mais um pedaço dessa paisagem lunar. Há poucos lugares na Terra em que o homem interveio de forma tão brutal na natureza.

A máquina mais velha em uso na mina, a escavadeira 258, é dos anos 50, um monstro arcaico que pesa quase 7 mil toneladas. As vigas de aço ainda são soldadas, e alguns dos controles ainda são feitos de bakelite, mas a máquina gigante é agora controlada por uma tecnologia de ponta. Usando um monitor, o piloto pode observar a lâmina circular que escava o carvão para fora da fenda na beira do poço, num movimento descendente constante. “Veja, tem um cano de água”, diz ele, apontando para um ponto vermelho piscando que se aproxima da escavadeira. Ele move o controle e a lâmina, que tem um diâmetro de cerca de 18 metros, desviando-a por um fio do cano de concreto.

Disponível em abundância

A cada segundo, a escavadeira 258 retira mais de uma tonelada de linhito do chão. O linhito, também conhecido como carvão marrom, é um material úmido e sedimentar, criado a milhões de anos a partir dos restos de plantas nos quais a energia resultante da fotossíntese foi armazenada. Hoje os seres humanos utilizam esta antiga energia solar. Embora o valor energético do linhito seja apenas moderado, porque mais da metade do material é composto por água, está disponível em abundância na área de mineração de carvão entre as cidades alemãs de Aachen e Colônia, no oeste do país.

Esteiras de vários quilômetros de extensão transportam o carvão para vagões de trem ou diretamente para uma das usinas de energia nas vizinhanças. Lá, ele é secado e moído até atingir a consistência de café em pó, e depois colocado numa câmara de combustão e aquecido a mais de 1.100 graus Celsius.

A alta temperatura faz com que a água evapore, e a fumaça resultante flui a alta pressão contra as lâminas de uma turbina, colocando-a em movimento com exatas 3 mil revoluções por minuto. Um gerador transforma a força rotacional em energia elétrica, e finalmente a eletricidade é enviada para a rede.

A RWE controla todo o processo, desde as grandes escavadeiras em Garzweiler até as linhas de alta-tensão. E o executivo Rolf Martin Schmitz da RWE supervisiona tudo isso.

“Uma fonte de energia com futuro”

Schmitz cresceu com o linhito. Original de Mönchengladbach, uma cidade na região industrial de Ruhr na Alemanha, ele estudou engenharia em Aachen e começou uma carreira ilustre, com passagens pela Steag, Veba, Thüga e E.on antes de começar a trabalhar para a RWE.
“O carvão é uma fonte de energia que tem futuro”, disse Schmitz certa vez, e ele ainda acha isso hoje. “Nós precisamos de cada vez mais eletricidade no mundo”, diz ele.

A RWE supre quase um terço da demanda total de eletricidade da Alemanha. A maior parte de sua eletricidade vem de 100 milhões de toneladas de linhito que são extraídas e queimadas por ano. A companhia sediada em Essen está até mesmo investindo na expansão de algumas de suas instalações de produção. Em outras palavras, também no futuro, o linhito continuará a garantir o lugar da RWE como a maior produtora de eletricidade da Alemanha.

Isso também faz com que a gigante da energia seja a maior poluidora do ar da Europa. Nenhuma outra companhia emite tanto CO2 quanto ela. E em nenhum outro lugar o gás é lançado na atmosfera de uma forma tão concentrada quanto nos arredores da mina de Garzweiler.

Três usinas de eletricidade – Niederaussem, Neurath e Frimmersdorf – estão localizadas a um raio de apenas 3.300 metros. O vapor de água das torres de resfriamento costuma escurecer o céu, e um filme de poeira de cor ocre cobre a paisagem. E além disso, há o dióxido de carbono. Juntas, as três usinas emitem cerca de 65 milhões de toneladas de CO2 por ano, o mesmo que cerca de 25 milhões de carros. Muitos moradores da área estão cansados da poeira, dos céus escurecidos e das emissões de gases.

Eles estão lutando contra a exploração exagerada no solo e a poluição do ar. Depois de 50 anos de mineração do linhito, eles dizem, já basta. A região que eles chamam de lar está sendo literalmente queimada. Um movimento de oposição está começando a se formar, e não só na região de Ruhr.

Apagão energético iminente

Em muitos lugares, as companhias de energia querem modernizar as antigas usinas de linhito ou construir novas usinas de energia de carvão negro. Os oponentes desses planos protestam em todos os lugares, e foram surpreendentemente bem sucedidos. As usinas já abandonaram ou postergaram uma dúzia de projetos, às vezes por causa de questões ligadas à lucratividade, mas com frequência por causa das objeções dos moradores locais.

O setor já alerta para um potencial apagão no fornecimento de energia se mais projetos forem desativados. A Agência de Energia alemã estima que em 2020 o país terá um déficit de cerca de 13 mil megawatts na capacidade de geração de energia, que corresponde a cerca de 10 grandes usinas de energia a base de carvão. “As coisas estão ficando apertadas”, diz Schmitz, que alerta que está ficando cada vez mais difícil garantir o suprimento elétrico do país.

Os críticos do carvão respondem que esta suposta falha no fornecimento de energia é uma invenção do setor energético. O movimento contra o carvão é liderado pela chamada Aliança Climática, um grupo de cerca de 100 organizações, incluindo a BUND (o braço alemão da Amigos da Terra) até a grande organização beneficente cristã Brot für die Welt. A Aliança Climática tem dois membros que não fazem nada além de fornecer assistência às iniciativas de cidadãos locais que estão tentando impedir os projetos de energia. Toda vez que há uma audiência sobre a construção de uma usina de energia em algum lugar na Alemanha, um membro da Aliança Climática está presente, como numa audiência recente na cidade de Brunsbüttel no norte, na foz do rio Elba.

Preocupações com a saúde

Há planos para construir o maior complexo de usinas de energia a partir de carvão negro em Brunbüttel, a pouca distância da antiga usina nuclear. Südweststrom (SWS), uma aliança de mais de 50 usinas municipais, planeja construir as duas primeiras unidades. Bettina Morlok, presidente da SWS, chegou à audiência com uma grande comitiva.

A audiência foi realizada para abordar o tema das possíveis concentrações de poluentes no ar. Morlok trouxe consigo um especialista em medicina ambiental de Giessen na Alemanha central para testemunhar. O professor garantiu ao público que tudo ficará bem, e que nada de fato mudará para os moradores locais. Muitos membros da audiência balançaram a cabeça em descrença.

“Parece que vai sair chantili das chaminés da usina”, disse um cidadão ironicamente. Um fazendeiro de maçãs expressou suas preocupações de que a poeira fina chova sobre suas frutas no futuro. Uma mãe explicou que sua filha sofreu com infecções respiratórias. “O que vai acontecer com ela quando tivermos as usinas de carvão?”

Os moradores locais estão irritados. Alguns já tiveram experiências em protestos contra o setor energético, como os dirigidos contra as usinas nucleares em Brunsbüttel e na vizinha Brokdorf há três décadas. Na época, as audiências foram acompanhadas por policiais com cães, diz Karsten Hinrichsen, meteorologista aposentado de Brokdorf. O movimento de resistência, diz ele, era mais radical, mais apaixonado e mais esquerdista. “Hoje nós temos uma abordagem mais prática e burguesa”, diz o ativista veterano. Talvez seja assim porque hoje o movimento anti-carvão passe por todas as classes sociais, de médicos a fazendeiros, ministros de igreja a cientistas.

Mais cooperativo

Mas seus adversários também se comportam de um jeito diferente hoje em dia. Eles são mais espertos, mais abertos e mais cooperativos. “Levamos isso muito a sério”, diz a presidente da SWS Morlok. Afinal, a aliança da SWS com as instalações municipais também incluem Tübingen, uma cidade com um prefeito do Partido Verde.

Morlok ouve com atenção quando um morador local, que sofre de asma, fala sobre seus temores. “Posso entender muito bem as preocupações das pessoas”, insiste Morlok. Naturalmente isso não a impedirá de construir a usina no mesmo minuto em que as autoridades concederem as autorizações necessárias.

Brunsbüttel é visto como um lugar ideal para a usina de energia a base de carvão. Graças ao rio Elba, as usinas não precisarão ter sua própria torre de resfriamento, porque o fluxo simplesmente carrega a água quente para o mar. E mesmo os maiores navios de carvão do exterior podem descarregar ali o que corresponderia a quatro ou cinco milhões de toneladas por ano.

Diferentemente do linhito, o carvão negro doméstico representa apenas um papel secundário para as usinas alemãs hoje. Elas estão comprando cada vez mais material fora do país, principalmente na Rússia, mas também da Colômbia, que já é a quarta maior exportadora de carvão, e da Austrália.

As companhias de mineração como a BHP Billiton, Rio Tinto, Xstrata e a Peabody Energy estão competindo por licenças para extrair carvão nas melhores áreas de produção. Elas estão espalhadas em torno do mundo inteiro, por exemplo, no Vale Hunter na Austrália, na bacia do Rio Powder no Estado norte-americano do Wyoming, e na costa leste de Kalimantan, um das duas principais ilhas da Indonésia. Em lugares como estes, o carvão está facilmente acessível, a mineração é barata e os custos de mão de obra costumam ser baixos.

Entretanto, apenas uma em cada sete toneladas de carvão vai para o comércio global. Os maiores países produtores de carvão precisam eles próprios da maior parte do combustível. Na China, principalmente, a indústria do carvão está em alta.

A dura realidade da mineração do carvão

Na província de Shanxi no norte da China, um trem de carvão após o outro atravessa a paisagem sedimentar, a caminho do porto de Qinhuangdao na costa leste do país. Uma fileira aparentemente interminável de caminhões, com as caçambas cobertas de forma inadequada com lona, trafegam pela estrada ao longo da linha de trem. Os motoristas se arriscam com seus caminhões super carregados, o que é comprovado por um ou outro caminhão tombado próximo das curvas da estrada.

A região de Shanxi é uma das jazidas de carvão mais importante do país. Durante o dia ela lembra um bar cheio de fumaça. Cerca de 1.500 minas funcionam lá, com milhares de mineiros que trabalham em turnos, exceto quando um incêndio interrompe a produção.
Em dezembro, 12 mineiros foram mortos numa mina próxima à cidade de Jeixiu. As autoridades a fecharam desde então. Liang, 57, um dos sobreviventes, especula que grandes quantidades de poeira de carvão no subsolo detonaram a explosão.

Liang trabalha na mina, a cerca de 800 metros de profundidade, desde os 22 anos. Os túneis são tão baixos, diz ele, que os trabalhadores só conseguem se movimentar agachados ou engatinhando. Eles retiram o carvão das fendas com martelos e pás, e às vezes até mesmo com as próprias mãos. Eles ganham o equivalente a US$ 169 por mês por esse trabalho que arruína com a coluna.

Bilhões em danos

Quando completou 55 anos, numa idade em que os mineradores já não são mais considerados ágeis e flexíveis, seu patrão o colocou numa tarefa diferente. Depois disso, o trabalho de Liang consistia em arrastar vigas de aço e de madeira, que são usadas para reforçar os túneis subterrâneos. “Este trabalho”, diz ele com um suspiro, “é até mais difícil.”

Os acidentes são comuns nas minas chinesas. Cerca de 3.215 trabalhadores morreram em acidentes só em 2008. Raramente as tentativas de resgate são tão bem sucedidas quanto uma operação espetacular no começo de abril, quando as equipes de resgate conseguiram retirar 115 mineiros com vida da mina de Wangjialing depois de terem ficado presos ali por oito dias. Mas não é apenas na China que a mineração do carvão é um trabalho sujo e perigoso, como descreveu o Greenpeace num relatório de 2008 intitulado “O Verdadeiro Custo do Carvão”.

No Estado norte-americano de Kentucky, por exemplo, as companhias mineradoras explodem o topo inteiro de montanhas para chegar com mais facilidade ao carvão. Na África do Sul, a água ácida dos poços de minas abandonadas está contaminando rios. E no Camboja, as mineradoras estão desalojando famílias para expandir a mina de Cerrejón, a maior mina aberta de carvão negro. A mina de Cerrejón é uma fonte importante de carvão para os fornecedores de energia da Alemanha, e a SWS também está pensando em importar de lá o carvão duro para Brunsbüttel.
De acordo com os cálculos do Greenpeace, o negócio de carvão provoca cerca de 360 bilhões de euros em danos a cada ano. Os ambientalistas alertam que se a humanidade continuar nesse caminho, as emissões de CO2 a partir do carvão irão aumentar mais 60% até 2030. Dadas as consequências, será que o mundo pode continuar se dando ao luxo de depender da energia do carvão?

O futuro do carvão

Parte da resposta pode ser encontrada emSpremberg no sul de Brandenburgo. No ano passado, a produtora de energia Vattenfall operou uma pequena usina piloto em sua estação de energia Schwarze Pumpe em Spremberg que separa o CO2 do carvão e depois o captura. “A tecnologia está funcionando”, diz Tuomo Hatakka, chefe da Vattenfall Europe. Em alguns dias, a companhia sueca pretende construir uma usina de energia de demonstração e testá-la para ver como ela funciona em grande escala. “Há um futuro para o carvão”, diz Hatakka. “Carvão sem emissões de CO2.”

Outra parte da resposta está na cidade de Ketzin no noroeste de Brandemburgo. Lá, cientistas do Geo Research Center de Potsdam estão comprimindo o CO2 em camadas porosas no subsolo. Até agora, eles injetaram 36 mil toneladas a uma profundidade de 650 metros. Os resultados até agora são promissores, diz o coordenador Hilke Würdemann. “As condições são exatamente as que esperávamos.”

O setor energético está depositando suas esperanças numa combinação dos projetos de Spremberg e Ketzin. A esperança é que a tecnologia CCS possa até mesmo se transformar numa fonte significativa das exportações, à medida que abre novas áreas de negócios para companhias alemãs como a Linde, Siemens e BASF. Os Estados Unidos e a China querem experimentar as primeiras usinas de energia a base de carvão de nova geração nos próximos anos.

Está claro que o custo disso será enorme. Adaptar as usinas, transportar o CO2 através de canos e comprimi-lo no subsolo – tudo isso aumenta muito os custos, o que afetará o preço da energia proporcionalmente. Os especialistas estimam que levará pelo menos dez anos para que a nova tecnologia seja usada em larga escala em todo o mundo.

Muito em jogo

Muita coisa está em jogo para as instalações alemãs. Suas usinas são velhas e precisam de reformas urgentes. As companhias precisam tomar decisões que serão válidas por pelo menos 40 anos, a duração de uma geração de usinas de energia. O problema é que ninguém sabe se o uso da tecnologia CCS vale a pena. Tudo depende do que acontecer com os preços dos direitos de emissões de CO2 de 2013 em diante, quando as usinas deverão adquirir certificados em leilões.
Se os preços continuarem baixos, será mais barato comprar direitos de emissões do que investir na CCS. Especialistas acreditam que o marco ficará em 50 euros por tonelada de CO2, em comparação com o preço atual de cerca de 15 euros por tonelada. Mas se os preços dos certificados aumentarem consideravelmente, como observam alguns especialistas, o uso da tecnologia valerá a pena – o que seria desastroso se das companhias elétricas não tomarem nenhuma atitude hoje.

Também há outros problemas a serem resolvidos. Quando a CCS é usada, as usinas de energia perdem cerca de 10% de sua eficiência, porque a captura do dióxido de carbono consome uma imensa quantidade de energia. Em outras palavras, mais carvão precisa ser queimado para produzir a mesma quantidade de eletricidade, o que essencialmente significa que a matéria-prima está sendo desperdiçada.

Mas não importa o quão sofisticada a tecnologia, o maior obstáculo continua quase impossível de ser superado: a falta de aceitação dos cidadãos que moram perto dos locais planejados para armazenar o CO2. Representantes das comunidades locais no leste de Brandemburgo expressaram suas reservas quando visitaram a usina piloto de Ketzin na última quarta-feira. Não se pode permitir que o lugar se transforme numa nova Asse, alertaram, referindo-se ao controverso repositório permanente de lixo nuclear no Estado da Baixa Saxônia.

Uma aposta enorme

Mas nem todos têm essas preocupações. Até o movimento ambientalista está dividido em relação à questão da CCS. O Greenpeace e a BUND rejeitam firmemente o processo. O Greenpeace argumenta que a tecnologia constitui “uma aposta enorme”, enquanto a BUND a descreve como nada além de uma forma de as companhias mascararem suas emissões. A União pela Conservação da Natureza e da Biodiversidade da Alemanha (NABU) e a organização conservacionista WWF, por outro lado, acreditam que vale a pena pelo menos tentar. Seu argumento pragmático é de que seria tolice descartar essa opção desde já. Mas será que o mundo tem uma escolha?

Não importa o que aconteça, Lord Nicholas Stern não vê alternativa à tecnologia de carvão limpo no futuro próximo. O economista, que causou polêmica há quatro anos com seu relatório sobre os custos da mudança climática, previu um cenário sobre a mistura de diferentes fontes de energia no futuro. De acordo com ele, o carvão tem um papel fundamental na mistura ainda por muitos anos – porque não há outra escolha.

Mesmo que as previsões mais otimistas se tornem realidade e o mundo possa satisfazer metade de sua demanda de energia a partir de fontes renováveis, enormes quantidades de combustíveis fósseis ainda serão necessárias, explica Stern. Ele acredita que o setor, se pretender atingir as metas climáticas mundiais, precisa fazer tudo o que for possível para reduzir as emissões de CO2 – e que o uso da tecnologia CCS será uma parte inevitável da equação. “Precisamos de milhares de usinas”, disse Stern recentemente numa conferência em Berlim.

Em outras palavras, a era do carvão está longe do fim. Até que a água, o vento e o sol possam fornecer energia suficiente, o carvão “limpo” poderia pelo menos desempenhar um papel na transição para as tecnologias renováveis. É claro, Stern não tem ilusões em relação ao tempo que levará para que um futuro de baixo carbono possa chegar. “Será uma transição longa”, diz ele.
Tradução: Eloise De Vylder
Reportagem [
The World's Ever-Increasing Hunger for Coal] do Der Spiegel, no UOL Notícias.

Petróleo nem sempre traz prosperidade


No Estado da Louisiana, assim como na Nigéria, na Venezuela e no Iraque, o setor petrolífero favorece a dependência, a corrupção e a indiferença aos danos ambientais.

Em lugar de abençoar a Louisiana com a prosperidade, o setor petrolífero favoreceu a dependência, a corrupção e a indiferença pelos danos ambientais. As riquezas de petróleo e gás da Louisiana – assim como as do Delta do Níger, da Faixa do Orinoco na Venezuela e do Iraque – também frearam seu desenvolvimento, fazendo com que ela ficasse bem mais atrasada em comparação a países dotados de menos recursos naturais.

Segundo dados do Departamento do Censo e da Universidade Harvard, a Louisiana está em 49.º lugar entre os Estados em expectativa de vida, tem a 2.ª maior taxa de mortalidade infantil, é o 4.º em crimes violentos, o 46º em porcentagem de pessoas acima dos 25 anos com formação universitária, e está empatado em 2.º em termos da porcentagem de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza. Reportagem de Steven Mufson, The Washington Post.

Evidentemente, não foi a riqueza do petróleo que criou estes problemas, mas o que mais surpreende é que não os tenha sanado. “Sempre fomos o Estado das plantações”, disse Oliver Houck, professor de direito do meio ambiente da Universidade Tulane. “O que petróleo e gás fizeram foi substituir a cultura das plantações agrícolas por uma cultura da produção de petróleo e gás.”

A produção de petróleo e gás da Louisiana atingiu seu pico na década de 70 e muitas companhias transferiram seus escritórios para Houston. Entretanto, as refinarias, as instalações para a importação de petróleo na costa e uma rede de milhares de quilômetros de dutos petrolíferos continuam tornando o setor uma poderosa força no Estado. O setor petrolífero está profundamente arraigado na infraestrutura mental e econômica da Louisiana, e continua sendo um dos seus principais empregadores. O recente desenvolvimento do gás de xisto, no norte, a região mais pobre do Estado, aumentará ainda mais a sua influência.

“Não existem maneiras de produzir a energia da qual hoje dependemos isentas de risco”, escreveu a senadora Mary Landrieu, democrata da Louisiana, em uma carta de junho em que pedia ao presidente Barack Obama que levantasse a moratória da perfuração em águas profundas. Ela afirmava que deixar ociosas plataformas de exploração em alto-mar equivalia “fechar 12 grandes montadoras de veículos, de uma vez”.

Moratória. Também o governador republicano Bobby Jindal e o senador David Vitter, republicano da Louisiana, pediram o fim da moratória. E Vitter advertiu que a interrupção da exploração “poderá acabar com milhares de empregos na Louisiana”.

Este argumento goza de um raro consenso em ambos os partidos, em um momento de profundas divisões. Uma pesquisa realizada pela Resmussen Report, no mês passado, mostrou que 79% dos eleitores do Estado acham que as perfurações em alto-mar deveriam continuar, muito acima dos 60% dos que afirmam o mesmo em todo o país.

Como nos países estrangeiros produtores de petróleo, os bilhões do petróleo provocaram discussões quanto à receita fiscal e aos royalties.
Quando Harry Truman era presidente, os que controlavam o poder político na Louisiana rejeitaram um acordo de divisão da receita do petróleo de alto-mar extraído em águas federais; depois de uma prolongada batalha judicial, o Estado acabou sem nada.

Portanto, a Louisiana acreditava conseguir finalmente o que lhe era devido quando obteve um acordo semelhante ao que o Estado rejeitara meio século atrás. Em 2006, em negociações a respeito da exploração em um novo setor das águas federais do Golfo, Landrieu conseguiu que o governo federal repassasse 37,5% dos royalties aos Estados do Golfo para a preservação e manutenção dos hábitats costeiros.

Dessa vez, foram os parlamentares de outros Estados que ficaram revoltados pelo fato de o governo abrir mão de bilhões de dólares de futuras receitas. A questão das receitas era uma repetição, de uma maneira mais civilizada, das disputas ocorridas entre os Estados do Delta do Níger e o governo central da Nigéria, ou entre curdos, xiitas e sunitas sobre a divisão das receitas petrolíferas no Iraque.

Embora o setor petrolífero tenha uma influência enorme na economia da Louisiana, o dinheiro que ele representa andou se reduzindo nos últimos anos, e o Estado luta para cobrir o déficit resultante. A Louisiana Mid-Continent Oil and Gas Association afirma que o setor representa 13% da receita estadual, em comparação com 40% quando a produção de petróleo e gás era maior. E, ao contrário de nações ricas em petróleo como a Noruega, que reservou cerca de US$ 437 bilhões das vendas de petróleo em fundos de pensão e em fundos de riqueza soberana, a Louisiana não dispõe de uma reserva para investimentos em épocas de dificuldades financeiras.
Por outro lado, os próprios moradores do Estado não cuidaram de diversificar sua economia. Nesta parte do país não há um Vale do Silício, ou um corredor de tecnologia como o da Virginia. Na década de 90, quando a Louisiana se deu conta de que precisava de novas fontes de receitas fiscais para compensar o declínio das receitas do petróleo, a melhor ideia foi a expansão dos cassinos de apostas no litoral.

A riqueza econômica do setor petrolífero permitiu-lhe conquistar o establishment político do Estado, que o apoiou e por sua vez recebeu seu apoio.
O ex-senador John Breaux, democrata da Louisiana, diz que o relacionamento não é diferente do que se estabeleceu entre os políticos do Michigan e as grandes fabricantes de veículos ou os políticos da Califórnia e os setores do entretenimento ou de alta tecnologia. “Nós os apoiamos e eles nos apoiaram”, afirmou.

Depois que deixou o cargo, em 2005, Breaux montou uma empresa de lobby com o republicano Trent Lott. Em 2009, a companhia recebeu US$ 530 mil da Chevron, US$ 330 mil da Royal Dutch Shell e US$ 600 mil da Plains Exploration and Production, uma petrolífera independente.
Como as holdings de energia são uma presença muito comum nas carteiras de investimentos dos mais importantes cidadãos da Louisiana, até mesmo membros do Judiciário, talvez seja difícil encontrar um juiz imparcial para ouvir um caso referente ao petróleo.

Imparcialidade. Em outubro do ano passado, os autores de uma ação inusitada sobre aquecimento global não conseguiram juízes de apelação suficientemente imparciais para ouvir sua ação, na qual alegam que, ao emitir os gases que produzem o efeito estufa as indústrias de energia e químicas aumentaram a “ferocidade” do furacão Katrina, causando danos ainda maiores às propriedades dos reclamantes.

Oito dos 16 juízes do Tribunal de Recursos dos EUA da 5.a Circunscrição Judiciária de New Orleans recusaram por causa do conflito de interesses. Além disso, as informações referentes à transparência mostram que quatro dos juízes que não se recusaram tinham investimentos em sociedades ou companhias do setor energético. Um juiz tinha ações em cinco companhias: BP, Chevron, ConocoPhillips, Devon Energy e Diamond Offshore Drilling.

Na década de 70, o ministro do petróleo da Venezuela previu que o petróleo, que ele chamou de “excremento do diabo”, levaria seu país à ruína. Mais de uma geração depois, a nação é governada por um líder volúvel que distribui gasolina barata na tentativa de eliminar uma persistente desigualdade social.

“Temos inúmeras características dos países petrolíferos embora usemos este termo para os outros”, disse o economista Jeffrey Sachs. Ele se refere à excessiva dependência dos EUA do petróleo e de uma política fiscal que mantém o petróleo relativamente barato. Além disso, acrescenta: “um setor petrolífero muito grande influi de uma maneira pouco natural na nossa política… O petróleo elege presidentes, determina nossa política externa, nossa política interna, nossa política de mudanças climáticas… Nos levou a adotar terríveis políticas energéticas e a uma paralisação da regulamentação. Consideramos o Delta do Níger como um exemplo do que um Estado petrolífero faz ao seu ambiente, mas é precisamente isto que estamos fazendo ao nosso próprio ambiente.”
TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
Reportagem do Washington Post, em
O Estado de S.Paulo
EcoDebate, 26/07/2010

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